Não foram muitas, mas tive algumas profissões. Tive, não. Corrijo : passei por algumas profissões.
Aos 14 anos, o pai de um amigo da escola me empregou em seu escritório de contabilidade, que mantinha com dois outros sócios. Fui o que, à época, se chamava de office-boy. Eu fazia pequenos serviços de escritório. Separava e distribuía a correspondência, mantinha organizado o arquivo dos clientes, ainda aqueles gaveteiros de metal com pastas suspensas ordenadas alfabeticamente, realizava pagamentos em bancos, buscava material na papelaria, café no mercado, trocava a fita das máquinas de escrever etc. Em pouco tempo, um dos sócios veio até mim e disse que eu estava a fazer o meu serviço muito bem feito, que eu era um excelente office-boy. Eu sabia daquilo. Não vou dizer que não gostei de ouvir o elogio, mas o tomei muito mais como uma simples constatação. Não me senti engrandecido nem tampouco envaidecido por ele. Eu não me via um office-boy. Não me sentia um office-boy. Não me acreditava um office-boy. Trabalhei lá por quase 3 anos.
No início de 1985, eu ainda com 17 anos (só completaria 18 em agosto), ingressei na primeira de minhas malfadadas faculdades. Medicina Veterinária, na UFU, a Universidade Federal de Uberlândia. Por motivos que não vêm ao caso agora, até porque já se vão quase 40 anos, frequentei o curso por apenas um semestre e meio, e o abandonei.
De volta ao lar, fiz um curso relâmpago de digitação e consegui emprego na função em uma concessionária Volkswagen aqui da cidade. Meu trabalho consistia, basicamente, em alimentar o sistema com dados sobre as ordens de serviço emitidas e quais os respectivos mecânicos que as executaram. Ao fim do segundo mês, o chefe da seção me disse que ele e os mecânicos estavam muito satisfeitos com o meu trabalho, que nunca os lançamentos das ordens de serviço tinham estado tão corretos e atualizados. Eu era um digitador muito bom. Eu também já sabia daquilo. Igualmente ao elogio feito ao meu trabalho de office-boy, também não me senti engrandecido ou envaidecido por esse. Eu não me via um digitador. Não me sentia um digitador. Não me acreditava um digitador. Fiquei lá por apenas cinco meses. Tendo ingressado no vestibular de fim de ano da USP para o curso de Química, curso de período integral, demiti-me da função de digitador.
No entanto, tendo que trabalhar de alguma forma, apesar da integralidade do curso em que estava matriculado, arrumei um emprego num clube de campo. Trabalhava aos sábados, domingos, feriados, carnavais e eventuais bailes noturnos em dias da semana. Foi nessa época que meu relógio biológico despirocou de vez; e continua assim até hoje. Mas, então, o sono não me fazia falta. A juventude me bastava. Trabalhei na função de caixa. Vendia fichas para os sócios, de refrigerante, cerveja, porções de batata frita, amendoim etc, ou trabalhava, às vezes, no restaurante, diretamente com os garçons, fechando a conta dos clientes. Em pouco tempo, o gerente financeiro, conhecido à boca pequena como Rosquinha, elogiou meu desempenho. Meu fechamento de caixa sempre batia, nunca faltava dinheiro. Tanto que, em certos fins de semana, eu não assumia nenhum caixa específico, ficava como uma espécie de volante. Dava assistência aos outros caixas, repunha suas fichas, leva-lhes troco, reprogramava as máquinas registradoras eletrônicas, uma novidade em 1986. Eu não recebia um puto a mais por isso, mas o meu contato com os sócios nesses fins de semanas era bem menor, quase que nulo, o que já era uma paga em si. Eu também já sabia daquilo, que eu era um bom caixa, acima da média (a questão é que a média é muito baixa). Igualmente aos elogios por meus trabalhos como office-boy e digitador, também não me senti engrandecido ou envaidecido por esse. Eu não me via um caixa de clube. Não me sentia um caixa de clube. Não me acreditava um caixa de clube. Trabalhei lá de outubro de 1986 a setembro de 1989.
Demiti-me do clube quando, então, arrumei um emprego noturno, de segunda à sexta-feira, das 19 às 23 horas, nas Faculdades Barão de Mauá. Barganhei os meus fins de semana pelas minhas noites. Além do quê, a faculdade ficava a poucos quarteirões de casa. Em muitas ocasiões, eu saía direto da faculdade de Química, às 18 horas, e ia direto para o trabalho, sem jantar nem nada. O alimento pouca falta me fazia. A juventude me nutria (e não dava barriga). Trabalhei como fotocopiador. Operava, muitas vezes simultaneamente, três grandes máquinas de "xerox", nas quais eram impressos desde material interno para a escola até cópias de cadernos e livros para os alunos da faculdade. Uma média de duas mil, duas mil e quinhentas cópias por dia. De novo, em pouco tempo, o chefe do setor elogiou o meu desempenho. Disse-me que o setor de fotocópias nunca estivera tão organizado e em dia com os pedidos e as encomendas. Eu era um exímio fotocopiador. De novo, assim como das minhas destrezas como office-boy, digitador e caixa de clube, eu também já sabia daquilo. Igualmente aos elogios feitos às minhas pregressas funções, também não me senti engrandecido ou envaidecido por esse. Eu não me via um fotocopiador. Não me sentia um fotocopiador. Não me acreditava um fotocopiador.
No fim de 1993, resolvi assumir para mim mesmo o que eu já sabia há tempos : que eu também jamais concluiria o curso de Química. Conversei com meu chefe, um dos filhos do então dono da faculdade, e ele concordou em mudar meu turno de trabalho para o período da manhã para que eu pudesse cursar Biologia - e me formar, enfim - na própria Faculdade Barão de Mauá. Como funcionário, eu tive bolsa de estudos integral, pagava apenas as matrículas de janeiro e julho, visto que o curso era de regime semestral.
Em 1994, comecei a cursar Biologia, a única graduação que carrego em meu magro e preguiçoso currículo. Sendo um curso voltado à licenciatura, no segundo semestre de 1995, precisei fazer um estágio obrigatório de 180 horas, que consistia, simplesmente, em assistir 180 aulas ministradas por um professor da área. Munidos de um ofício fornecido da faculdade, dirigíamo-nos a uma escola pública ou particular para que algum professor nos concedesse o tal estágio. Estágio que era controlado e registrado em um caderninho com 180 espaços em branco, que deveriam ser preenchidos com o assunto dado em cada uma das aulas e, ao fim do estágio, carimbados e assinados, cada um dos 180 espaços, pelo professor responsável. Só com a entrega do caderninho completo, seríamos promovidos ao próximo ano do curso.
Fui muito bem recebido pelo professor Gilson, de Ciências, que pouco tempo depois, sem eu jamais ter suspeitado disso no início, viria a se tornar o meu grande mentor na carreira docente. Pediu que eu falasse um pouco de mim, sobre a minha "decisão" de ser professor. Acontece que eu nunca decidi ser professor. Inclusive, quando comecei a cursar Biologia, eu nem sabia se tratar de um curso de licenciatura; tomei ciência disso apenas no segundo semestre do curso. Comecei a cursar Biologia porque eu já estava "velho", carregava o fracasso de duas faculdades nas costas e precisava, desesperadamente, me formar em algum curso superior. Com vistas à bolsa de estudo, dos cursos oferecidos pela faculdade na época, o de Biologia era o que me era mais afim. Cursei Biologia, sim, por certa afinidade com o seu conteúdo, mas principalmente porque era o que me estava às mãos. Claro que não disse isso para ele. Fiz um breve resumo dos meus fracassos acadêmicos, devo ter dado uma floreada aqui e acolá, e o velho mestre acabou meio que se identificando comigo.
Ele também cursara Química como primeira faculdade, Química Industrial. No seu terceiro ano, precisando de uma renda extra, aceitou umas aulas para pagar as contas e acabou seduzido pelo magistério, isso lá pela década de 1960. Deixou a Química de lado e abraçou a Biologia. Nada a ver com o meu caso. Mas, por alguma razão, ou pela falta dela, ele achou nossas trajetórias parecidas - talvez tenha me visto como uma versão mais jovem sua - e me aceitou prontamente como estagiário.
Sabendo que eu trabalhava, falou que eu não me preocupasse em cumprir regiamente as 180 horas de estágio, que eu poderia assisti-las de acordo com minhas disponibilidades, e que, independente das horas de fato cumpridas, ele assinaria a totalidade delas para mim no fim do semestre. Era o que eu queria ouvir. Ninguém aprende a ser professor só assistindo a aulas. Sejam elas quantas forem, 180, 1800, um mol de aulas. Fosse assim, eu já seria um professor hábil e formado, pois estava, então, com 28 anos e desde os 6 na escola. Vinte e dois anos assistindo a aulas. Olha só o porrilhão de aulas que eu já assistira.
Recusei, no entanto, a sua generosa oferta. Não por honestidade genuína, mas muito mais pela vergonha de não parecer honesto. Falei que eu faria o possível para assistir a todas, mas se, por motivos justificáveis, eu não conseguisse, aceitaria algumas assinaturas fantasmas. Acabei por cumprir todas as 180 horas.
Professor de Ciências do bons e das antigas que era, Gilson gostava de realizar pequenos experimentos e práticas com seus alunos. Experimentos básicos, simples, mesmo. No entanto, confidenciou-me um dia, que um dos experimentos, o da eletrólise da água, não dava certo já há alguns anos. Ao invés dos esperados gases hidrogênio e oxigênio formados nos respectivos polos negativo e positivo, surgia um gás esverdeado e de odor ardido e corrosivo. Sem me ater e me prolongar em detalhes técnicos (a postagem já está grande pra caralho), só direi que descobri o problema e o solucionei.
A partir daí, Gilson me nomeou o seu AAA, assessor para assuntos acadêmicos.
Terminei o estágio em fins de novembro de 1995. Agradecemo-nos, despedimo-nos e ele reforçou a recomendação de que eu deveria mesmo seguir a carreira de docente, que eu poderia me tornar um ótimo professor.
Em 1996, segui com minha vida normal, terceiro ano da faculdade à noite e trabalho de fotocopiador durante o dia. Em abril, Gilson ligou lá em casa. Queria falar comigo. Disquei o número de telefone que ele deixara com a minha mãe. Havia ligado, disse-me, para me oferecer um emprego de professor, em uma grande escola particular da cidade, na qual ele também lecionava. Naquele ano, a escola começaria um projeto chamado Centro Tecnológico. Dois laboratórios onde os alunos dos sétimos e oitavos anos tomariam contato e aprenderiam os rudimentos de componentes eletrônicos, resistores, transistores, sensores etc. Para um dos laboratórios, já havia um professor, ele próprio; para o outro, pensara em mim.
Aceitei. Demiti-me da função de fotocopiador (o ex-chefe ainda me concedeu 60% de bolsa para o ano e meio restante do curso) e, uma semana depois, comecei a ser professor. Contíguos e intercomunicáveis por uma porta que eram os dois laboratórios do Centro Tecnológico, Gilson vivia fazendo rápidas incursões naquele em que eu estava trabalhando, via como eu estava me saindo, socorria-me, orientava e me dava valiosíssimas dicas de como melhor conduzir uma aula. Dicas, muitas delas, que uso até hoje. Aprendi verdadeiramente a dar aulas ali, no Centro Tecnológico, sob a sábia batuta de Gilson.
Ao fim do primeiro bimestre, Gilson disse que suas previsões haviam se confirmado, que eu era um ótimo professor, que os alunos estavam gostando da minha aula etc. Eu também já sabia daquilo. Porém, diferentemente dos elogios feitos pelos meus ex-chefes às minhas habilidades em minhas antigas profissões, senti-me engrandecido por esse; envaidecido, até, meu ego inflou feito um suflê; talvez por vir de alguém por quem eu tinha (tenho) profunda admiração intelectual, profissional e pessoal. 
Eu me vi um professor. Me senti um professor. Me acreditei um professor.
Daí, então, a minha desgraça.