Tecnicamente, eu não gosto do som sertanejo, e ponto. Porém, algumas músicas sertanejas, devo dar o braço a torcer, são clássicos; incontestes, insuperáveis e imortais registros fonográficos da mais pura cornagem e da mais autêntica dor de cotovelo.
É o caso de "Na Hora do Adeus". A presença da palavra Adeus no título já prenuncia algo da pungência que se seguirá. Adeus é foda. Não é tchau, não é até logo. Adeus é taxativo e categórico. Não deixa margem nem espaço a um reencontro, não deixa o quarto montado esperando por um retorno.
Adeus é definitivo, e o ser humano evita o definitivo o quanto pode, o definitivo é o fim, tem gosto de derrota, de incompetência; talvez por a morte ser definitiva, e o fim.
Adeus não é bye, bye, so long, farewell, como possa supor Guilherme Arantes, outro especialista em cornagem. Até mais..., até um dia..., a gente se vê..., deixam indefinições no ar, deixam reticências a marcar uma trilha para o caminho de volta, feito as migalhas de pão deixadas ao longo do caminho por João e Maria. O adeus não deixa trilha de migalhas, não deixa reticências, que se algo de bom pode ser dito do adeus, é isso, ele nos livra das hediondas reticências.
Por isso, para o sujeito se decidir pelo adeus é porque a testa e o pescoço não mais suportam o peso do chifre. O adeus só vem depois do cara ter sofrido muito, pastado feito burro velho, o adeus nunca é fortuito ou leviano, ele é um condensado terrível de decepções e de dores.
Diz a música em certo trecho : Na hora do adeus, você olhou pra mim,  e não acreditou ao ver chegar o fim, e perguntou, Porque? Mas eu não respondi, só pra não te ofender, disse adeus e sai.  
Sair sem dizer nada, sem aproveitar a chance de chamar a biscate de biscate, a vaca de vaca, a puta de puta, não é estoicismo que qualquer um apresente. É estoicismo adquirido via muita porrada, é estoicismo que é um calo na alma, misto de resignação e desesperança. Além disso, o silêncio é o maior castigo pra vagabunda, o cara sair sem lhe dizer o porquê, ela passar o resto da vida sem a resposta.
E para acabar de matar, o corno segue : Saí da tua vida de cabeça erguida, coisa que você não fez. Pãããta que o pariu. É isso aí, chifrudo. Isso sim é um corno de respeito.
O cara sai todo cheio de orgulho, de cabeça erguida. Com galhada, sim, porém com galhardia. Depois, é claro, o cara vai pro bar, vai chorar pra caralho, vai encher a cara com os amigos, todos cornos também. Mas na frente da biscate, não. Na hora do adeus, não.
Na Hora do Adeus
(Carlos Colla/Chico Roque/Matogrosso)
Na hora do adeus, você olhou pra mim
E não acreditou, ao ver chegar o fim
Tentou me seduzir, chorando me agarrou
Teu corpo ofereceu, pediu e suplicou
E perguntou, Porque?
Mas eu não respondi
Só pra não te ofender, disse adeus e saí.
 
Sai da tua vida, eu só representava
O cheque no final do mês
Você não respeitou quem te amou demais
Só abusou de mim e me passou pra trás
Sai da tua vida de cabeça erguida
Coisa que você não fez
Eu já chorei de mais agora vem a sua vez
Eu acho que vai ser melhor
Melhor pros três

E perguntou, Porque?
Mas eu não respondi
Só pra não te ofender, disse adeus e sai
Sai da tua vida, eu só representava
O cheque no final do mês
Você não respeitou quem te amou de mais
Só abusou de mim e me passou pra trás.

Sai da tua vida de cabeça erguida
Coisa que você não fez
Eu já chorei de mais agora vem a sua vez
Eu acho que vai ser melhor
Melhor pros três
Na hora do adeus, você olhou pra mim
E não acreditou, ao ver chegar o fim.

Para música e vídeo, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.