Lembro de ti a todo momento.
No movimento,
Na artrite do motor,
No selvagem moto-contínuo da vida.
Lembro. Lembro, sim.
Mas não há mais tempo
De imota e preguiçosa madrugada,
Não há mais paradeiro
Onde possa me sentar, ficar descalço, esticar as pernas
E pensar em ti.
Deixo-te, então, 
Aos ninares e aos acalantos dos céus de outonos invernais
E aos cuidares das estrofes desafinadas dos menestréis,
Sempre ineptos em fazer tuas vontades,
Em adoçar teu café na exata medida,
Em levar-te o chocolate com que adoras te lambuzar,
Em colocar no toca-CD a música em que estás a pensar e a cantarolar baixinho.
Como prova de meu fracasso e de meu carinho, porém,
Levo foto 3x4 tua em minha carteira.
Não daquelas em preto e branco,
Tiradas pelo japonês do bairro.
Daquelas em prata, vácuo e solidão,
Em alta resolução,
Tiradas pela Nasa,
Pelo Hubble,
O J.R. Duran
Das Luazinhas maliciosamente ingênuas,
Cuidadosamente descuidadas
E desnudas.