Fecho a porta da sala,
A que dá para a sacada.
Puxo a grossa, pesada
E rústica cortina,
Como se a parca claridade
Da rua
Do céu
Pudesse carregar em si
Gérmens do frio de fora.
Apago as luzes,
Como se a escuridão
Fosse uma lareira de fogo morto :
Não esquenta.

Visto a velha calça
E o velho agasalho de moletom
Sobre o velho corpo,
Uma velha e desfiada meia nos velhos pés,
Um velho cobertor azul
Sintético
(tudo em mim e ao redor é velho -
só esse frio é novidade).
Uma de minhas gatas
Se enrodilha em pantufa nos meus pés :
Não esquenta.

Esquento à ebulição
E tomo o resto de uma sopa de tomates.
Desce-me vermelha 
E queimando :
Não esquenta.

Boto um seriado na TV,
Um herói cego,
Atormentado e insone,
Vestido em couro e de demônio
Que soca o mal que vê nos outros 
Para acalmar e apaziguar
Aquele que lhe habita :
Não esquenta.

Preparo uma caneca de leite,
Com chocolate, canela
E açúcar queimado,
E deito-lhe farta dose de rum :
Não esquenta.

Defeco,
Expulso,
Ejeto essas palavras,
Constipadas,
Ressecadas,
Restos de refeição apimentada
Por um cu cheio de hemorroidas :
Não esquenta.