A noite vai esvaziando. 
Tomo-a em doses puras, sem gelo. 
Inútil. 
A noite não me embebeda mais. 
Transcorre tranqüila, no entanto. 
Não há tristeza daquelas densas, 
Irrespiráveis. 
Apenas móbiles de angústias leves 
A balançar e tilintar 
Pequenos e melancólicos sons de bronze. 
Vai amanhecendo a garrafa de rum 
Projetando um nascer do sol âmbar 
Na um dia branca toalha da mesa 
E em minha, outrora, face bela. 
Dispensável arrebol : 
Não pode devolver o viço a nenhum dos dois. 
Vasculho o armário de remédios 
À cata de um paregórico, uma panacéia, 
Para corrigir a azia, 
O incômodo de uma vida confortável 
Que não me deixa arriscar mais nada: 
Todos com prazos de validade vencidos. 
Você dorme 
E eu sonho. 
Dorme a roncos vistos 
E eu sonho à vozes trancafiadas. 
Absorto, em meu pensamento torto, 
Eu tramo. 
Arquiteto metrópoles silenciosas 
E pequenas infidelidades.
"Você não estava procurando a alma humana? É por isso que você continua mudando pessoas e coisas por aí e ao seu redor, a cada noite, a cada noite, a cada noite, a cada noite..."