O governador Alckmin
Cortou o bônus-cala-boca dos professores,
O mensalão da classe docente.
Cortou o bônus-propina,
O suborno anual para que os nobres mestres,
Aprovando e diplomando,
Sem remorso nem remordimento,
Semianalfabetos,
Melhorassem os índices governamentais da educação
As estatísticas.
O governador Alckmin
Cortou o bônus-vistas-grossas dos professores :
Não trocarão seus carros nesse ano,
Seus celulares,
Terão que se contentar com as polegadas de suas tvs atuais
Não viajarão nas férias de julho.
O governador Alckmin
Tirou o doce da boca da criança,
Que,
Birrenta,
Ameaça-o
Agora
Com greve branca
(escolas da cidade já aderiram a essa canalhice hoje, e a em que eu leciono, decidiu por aderir amanhã).
Greve branca,
Arma branca,
Faca de cozinha,
De cortar pão,
Canivete de descascar laranja,
De picar fumo,
De lascar unha do dedão do pé,
Alicatinho de cutícula de madame
Contra quem detém o botão da bomba H?
Poupem-me.
Fui vacinado intrauterinamente contra a burrice, contra a hipocrisia
Contra o contrassenso.
Levantarei amanhã
Como o de costume,
Com resquícios de ressaca,
Caminharei suarento e mal-humorado a minha légua tirana,
Tomarei meu material do armário,
Beberei o café de todas as manhãs pago pelo contribuinte,
Ignorarei o burburinho 
E os ânimos acirrados dos "rebeldes"
Desprezarei a decisão da maioria
Entrarei em sala e darei minha aula
Como faço há 20 anos
Como faço a única coisa que sei fazer.
Que essa é a maneira mais divertida
Que encontrei até hoje para viver :
Ser malvisto e malfalado,
Maldito,
Entre os meus pares díspares,
Horrorizar e virar assunto das páginas dos feicibúques
Dos meus pretensamente iguais.
(e deixem que digam, que pensem, que falem)