Nunca tive o projeto de envelhecer. Morreria novo, um belo defunto a ser velado, uma figura de cera sobre a lousa fria, aquela coisa meio Álvares Azevedo, mal de século, tédio e spleen; não passaria, pelas minhas contas, dos trinta e poucos.
Como todas as previsões que já ousei fazer, essa também falhou, avancei pela quarta década, há um bom tempo.
Fiquei velho sem pretender, sem perceber, até.
Uma vez nessa condição, tento ver o lado bom da situação, que é o que a todo velho resta fazer, ver o lado bom da decripitude, o meno male, uma vez que ele não tem mais forças físicas para consertar, evitar ou contornar o lado ruim.
Meno male, mais velho, ficaria mais sábio. Previsão (ilusão) errada, de novo. Não tem nada de mais velho, mais sábio : só tem mesmo de mais velho, mais velho. Simples assim.
A maior tranquilidade do velho, a maior tolerância para com as vicissitudes da vida, para com os estorvos e entraves, para com as pessoas que lhe desagradam, não vêm da sabedoria adquirida pela contemplação e profunda reflexão ao longo de seus longos anos.
A aparente serenidade do velho, repito, vem da falta de força física para dar porrada no que lhe contraria. Não tem nada de sábio nisso.
Nem defunto jovem nem velho sábio.
Meno male, eu envelheceria com, digamos assim, certa dignidade física, fraco, porém digno. Sempre apresentei uma saúde acima da média dos de minha idade; meno male, não me tornaria uma fármacia ambulante, com um porrilhão de comprimidos multiformes e multicores, um-para-dormir-outro-para-acordar, um-para-abrir-o-apetite-outro-para-controlar-o-peso, um-para-a-hipertensão-outro-para-a-hipo, um-para-cagar-outro-a-estancar-a-diarreia.
Eu seria um velhinho que enfraqueceria saudavelmente.
Seria. Porque nem disso posso mais me assegurar. De uns tempos para cá, tenho tomado mais remédios do que tomei, talvez, durante minha vida toda. Se não mais que na minha vida toda, pelo menos que nas últimas três décadas.
E nem são doenças graves, nada de mais. Aquela pancada levada no dedão, no joelho, que inchava, ficava roxa, e sumia em dois ou três dias, agora recorre ao anti-inflamatório; aquela infecçãozinha na garganta, curada com gargarejos de água, sal e vinagre, agora faz conchavos com poderosos antibióticos.
Venho numa fase crônica de sintomas de velhice. Pode ser só uma fase, uma visualização rápida da senilidade, como aviso para que melhor eu me cuide. Os mais religiosos diriam que é deus a mostrar minha finitude, como forma de que eu me torne mais humilde e me ajoelhe a seus pés.
Duvido que seja um castigo divino pela minha suposta arrogância, nenhum deus perderia seu tempo comigo. Eles sabem que não acredito neles, que não creditaria nenhum revés com ares de ensinamento aos seus poderes celestiais. Nenhum maníaco psicopata realiza seus planos se não levar os créditos por eles, é o que o move, ser reconhecido; com os deuses também é assim, por isso, minha atual maré de azar não é conspiração dos deuses.
Bem que pode ser mau-olhado, olho gordo ou quebranto, sofro muito com o tal do quebranto.
Seja o que for, o problema nem é o joelho doendo, a garganta ou gengiva inflamadas, o problema é não poder tomar a boa e velha cerveja. Cinco dias de anti-inflamatório, mais sete de antibiótico, e nada da cervejinha nossa de cada dia.
Resta invocar um placebo, tomar cerveja sem álcool, ir ao mercado, comprar, pôr pra gelar, deitá-la à caneca, realizar todo o ritual, repetir todo o gestual, preencher todo o tempo e ocasião ocupados pela verdadeira.
Cerveja sem álcool é igual a namoro de eunuco com mulher frígida, mas é um namoro. Meno male, cerveja sem álcool não dá prazer algum, mas podemos tomá-la a qualquer hora, não satisfaz, mas é permitida, meno male.
Tentando, certo dia desses, incrementar minha cervejinha que passarinho bebe, lembrei, sabe-se lá o porquê, coisas desses delírios que a sobriedade causa, do dia de St. Patrick, santo padroeiro da Irlanda. Nesse dia, os descendentes dos leprechauns (o saci lá deles) transmutam em verde toda e qualquer cor ao seu redor. Tudo fica verde. Desde o vestuário até, lógico, a cerveja.
Então, também me lembrei que, guardado em algum armário da cozinha, jazia um frasco de anilina azul, desses corantes alimentícios. Pinguei três ou quatro gotas de intenso azul no fundo do meu canecão de vidro, despejei a cerveja, e presto! Um belo e vistoso canecão de cerveja azul.
São Patrício é o caralho. Na casa do Azarão, é o dia de São Smurf, que também são pequenos leprechauns. Daqui pra frente, só cerveja azul, a blue beer, a triste cerveja.
Talvez seja isso que a mim caiba, uma velhice sóbria e cerveja azul.
A propósito do azul, e aproveitando que falei de medicamentos, existe um tal comprimidinho azul que dizem fazer milagres. Ao contrário dos anti-inflamatórios, antibióticos, antiácidos, anti-histamínicos, antietc, não preciso me valer dele. Ainda.
Mas pelo trotar do coche...