Eu nunca quis ser um alto executivo
De uma supermultinacional,
Miliardário,
A viajar o mundo com minha valise 007
A influenciar as bolsas de valores.
E consegui :
Sou pacato funcionário público.

Eu nunca quis ter um carrão envenenado
Motor V8
Uma Ferrari Testarossa carmim.
E consegui :
Nem carteira de habilitação, tenho.

Eu nunca quis ser um conquistador,
Um galã da novela das oito,
Um Don Juan, um Casanova.
E consegui :
As namoradas que tive,
Contam-se nos dedos de uma só mão.

Eu nunca quis ser o camisa 10 da seleção,
Vestir a plumagem canarinho,
Desfilar em aclamação popular do alto de um carro de bombeiros,
Passar no canal 100.
E consegui :
Nunca venci um campeonato de pebolim,
Nem de jogo de botão,
Nem de Atari.

Eu nunca quis ser um douto erudito,
Um literato,
Um descobridor de nada.
E consegui:
Vivo, há vinte anos,
De repetir a mesma ladainha,
De Mendel pra cá, de Darwin pra lá, de Lavoisier pra acolá,
De narrar glórias alheias.

Eu nunca quis ser célebre,
Notório,
Nem expoente de nada.
E consegui :
Mantive-me firme,
Realizei todos os meus não-desejos,
Sou um  homem realizado.