O Super-Homem chega em casa
E sonha em tomar um bom banho,
Em deixar o cabelo por pentear,
Em botar uma cueca frouxa
E se sentar à sacada
À noite
A contemplar
As constelações
A Lua
O éter
O universo.
Como um visitante que olha para uma pintura num museu,
Não como um Van Gogh urgente a açoitar a noite estrelada com seus pincéis;
Como o destinatário de um cartão-postal entregue pelo carteiro,
Não como um turista sujeito a atrasos de voo e a indigestões por comidas locais;
Como um espectador acéfalo hipnotizado pela tela de uma TV aberta;
Não como um ator a encenar o drama cósmico do horário das oito.

Super-Homem chega em casa
E sonha em não ser super,
Em não ter que se superar.
Sonha em não ter que fazer a barba,
Em não ter que encolher a barriga,
Em não ter que pôr enchimento na cueca sobre o uniforme,
Em não ter de disfarçar a sua miopia.

Qual o quê...

Super-Homem, a lâmpada da cozinha queimou;
Super-Homem, é dia de pôr o lixo para fora;
Super-Homem, a resistência do chuveiro;
Super-Homem, acabaram o sabão em pó, o vinagre, os ovos e o papel higiênico;
Super-Homem, a ração dos gatos;
Super-Homem, tem uma barata atrás do sofá;
Super-Homem, pagou o IPTU?

E o Super-Homem prefere, então,
Ir dormir.
E sonha em sonhar
Com um eclipse total de um sol vermelho
E com duas rodelas de kryptonita
Em seu gin-tônica.