Dois alunos me abordaram no pátio da escola, num intervalo entre duas aulas :
- Professor, inscreve e ajuda a gente na Olimpíada de Biologia?
- E em que modalidades vocês pretendem competir?
Eles não entenderam a ironia, não captaram o chiste. Não riram nem manifestaram qualquer expressão de desdém pela piada sem graça. Ficaram a se entreolhar.

A resposta é um categórico não. Primeiro, ainda que não principalmente, porque não tenho tempo. Deixá-los minimamente aptos a mais que simplesmente marcarem um "X" demandaria infrutíferas horas e mais horas. Segundo, e sobretudo, porque sempre acreditei que, ao conhecimento, não se deve dar esse tipo uso, o de competição, de exibicionismo e premiação. Aliás, a priori, creio que o conhecimento não precise ser de nenhum emprego prático, de nenhum utilitarismo.
Ele, o conhecimento, deve existir e ser adquirido per si. O conhecimento pelo conhecimento. O conhecimento pelo prazer pessoal e inalienável de conhecer. Como todo prazer pessoal, ele deve ser de natureza íntima, não deve ser dado à promiscuidade, não deve ser tratado como um item em uma vitrine de shopping center, ou em uma prateleira de supermercado.
A exemplo do que falo, não me lembro, em minhas infância e adolescência, de uma única ocasião em que meu pai tenha posto um livro em minhas mãos e ordenado que eu o lesse. No entanto, sempre deixou muitos livros disponíveis em nossa casa. Na época, e digo das décadas de 1970 e 1980, era comum as editoras publicarem coleções e enciclopédias na forma de fascículos. A cada semana, ou quinze dias, um novo fascículo chegava às bancas de jornais e revistas e, ao fim, eram encadernados em livros de capa dura.
Havia uma estante com várias dessas coleções na sala de casa. A coleção Conhecer - doze volumes de capa dura vermelha com letras douradas e que tratava de conhecimentos gerais, História, Geografia, Ciências, Política etc -, a Ciência Ilustrada - seis volumes de capa azul escura com letras prateadas, que trazia as novas tecnologias; novas para a época, claro -, a Medicina e Saúde - dez volumes de capa verde com letras douradas, de conteúdo óbvio -, a Grandes Vultos da Nossa História - seis volumes de capa branca escrita em dourado e que trazia biografias das principais figuras de nossa triste História. Além de dois dicionários grossos, completíssimos e de toda a coleção infantil do Monteiro Lobato.
Criei-me entre esses livros. Tomava-os sem compromisso ou obrigação, aleatoriamente, e passava tardes a lê-los. Meu pai, que eu me lembre, nunca me perguntou sobre o que eu lera neles, nem ao menos se os lera, nem eu nunca contei. Nem a ele nem a ninguém. Eu gostava de saber. E era só.
Quando saía à rua para brincar com a molecada não ficava falando sobre a civilização Maia, sobre a longevidade das diversas espécies animais, sobre os maiores vulcões do mundo. Eu sabia. Era o importante. E o que bastava. Minha irmã, apenas dois anos mais nova que eu, por outro lado, passava pela estante e dava aos livros a mesma atenção que ao abajur, ao sofá ou à mesinha de centro; talvez até menos.
Lembro-me de uma outra situação, que, igualmente, talvez até mais, bem ilustra minha postura para com o conhecimento. Em meu segundo ano do primário (1975), para punir alguma traquinagem da sala, a professora nos castigou com um ditado de quarenta palavras, uma imensidão para a nossa idade. Quem acertasse menos de trinta e duas palavras, o equivalente a uma nota 80 - sim, à época, a nota era de 0 a 100, e, sim, à época, as professoras primárias bem sabiam fazer proporções - teria seus pais chamados à escola.
Acertei a grafia das quarenta. Gabaritei. Surpreendida, a professora resolveu me premiar. Saiu comigo e com o meu ditado perfeito nos exibindo pelas outras salas - eram um total de oito - e também pela sala da Diretora. Não morri porque não era a minha hora. Não me caguei porque não tinha merda pronta. Eu teria preferido o castigo ao prêmio. A partir de então, para evitar novas premiações, passei, deliberadamente, a errar  uma ou duas palavras por ditado, ou um ou dois resultados na tomada da tabuada.
Para mim, treinar estudantes para que compitam em Olimpíadas de Biologia, ou de qualquer outra disciplina, é a mesma e exatíssima coisa que adestrar cãezinhos poodles, que colocá-los a desfilar e a saltar por sobre obstáculos e por dentro de aros para a apreciação de uma banca julgadora. É prostituir o conhecimento por umas medalhas de lata e umas faixas de falso cetim. Medalhas são para heróis de guerra. Mortos, de preferência. Faixas de campeão são para misses e Presidentes da República.
Sentiria-me, também, levando parte do crédito e da glória em eventual boa colocação, um usurpador do trabalho de outrem, um aproveitador. Um cafetão de Mendel, Darwin, Spallanzani.

Tornei a lhes perguntar (afinal, alguma diversão, vez ou outra, tenho de extrair de meu ofício) :
- Em que modalidades da Olimpíada vocês pretendem competir?
Tornaram a se entreolhar. Um deles, mais corajoso, tropeçando em gaguejares, disse :
- Ainda não decidimos, professor.
Ainda não decidiram... Pãããããta que o pariu!!!
- Pois, então, quando resolverem, voltem a me procurar.
Isso foi há dez dias.