Há aqueles
Que levam pela vida
A pesada bola de ferro de uma diabetes agrilhoada em seus calcanhares.
Cortam-lhes o açúcar,
O doce da vida,
E eles não morrem.
Acomete-lhes a cegueira
E eles não morrem.
Assalta-lhes o caos vascular
E eles não morrem.
Amputam-lhes os membros
E eles não morrem.
E ainda sorriem.

Há aqueles
Que penam pela vida
A rotina tirana de uma hemodiálise.
Cortam-lhes o sal, 
O tempero da vida,
E eles não morrem.
Limitam-lhes até a água,
Condenam-lhes a um exílio em deserto fisiológico,
E eles não morrem.
Implantam-lhes cateteres nos braços e no pescoço
E eles não morrem.
Acinzentam-lhes a pele e as faces,
Suam urina,
E eles não morrem.
Amputam-lhes os membros
E eles não morrem.
E ainda sorriem.

Há aqueles
Que arrastam pela vida
O fardo intransportável de um câncer.
Bombardeiam-lhes com radiação de cobalto-60
E eles não morrem.
Administram-lhes venenos incandescentes nas veias
- Napalm-terapia -
E eles não morrem.
Tosam-lhes os cabelos
E eles não morrem.
Sabotam-lhes o sistema imunológico
E eles não morrem.
Amputam-lhes os membros
E eles não morrem.
E ainda sorriem.

Há aqueles
Que puxam pela vida
A inútil carroça de rodas quadradas do magistério.
Desprezam-lhes o conhecimento e a formação
E eles não morrem.
Desacatam-lhes em sua função e em seu ganha-pão
E eles não morrem.
Ridicularizam-lhes os valores morais
E eles não morrem.
Pagam-lhes salários de fome
E eles não morrem.
Submetem-lhes a ambientes insalubres,
A pelourinhos irrespiráveis,
E eles não morrem.
Não lhes amputam os membros, é verdade
Mas o orgulho profissional e a dignidade
E eles não morrem.
Dentre esses, porém,
Nenhum é pego
Ou se pega
- Ainda que raramente
Ainda que por descuido 
Ainda que por distração -
A sorrir.