Elaborar e confeccionar drinks é coisa de viado! 
Aquelas frescuras de bebidas coloridinhas e açucaradas, meia dose disso, um quarto de dose daquilo, raspinhas de limão siciliano, ou, pior, de lima da pérsia, duas ou três gotinhas de licor de anis, cassis, cacau, menta e papaya (com y mesmo, que é pra ficar mais bicha ainda), enfeitadas com canudinhos sanfonados, com guarda-chuvinhas de papel crepom, ou, pior, com flor de hibisco, e, claro, servidas sempre sobre um guardanapo dobrado em origami, que é pra bichona limpar os cantos da boca de chupar rola. Uma simples e aparentemente inofensiva rodela de limão na borda do copo já é excesso de viadagem. Que a única rodela de que macho de respeito gosta é a rodela do cu!
Elaborar e confeccionar drinks é coisa de viado!
Não obstante, criei um. Mas é bebida de macho das antigas, tipo rabo de galo, de macho-jurubeba, de macho que faz a barba à navalha e cauteriza os cortes com aqua velva, que corta as unhas do pé com o mesmo canivete com que pica o fumo de rolo e descasca laranja.
Isso foi lá em 2000, 2001 - virada do século, alvorada voraz -, quando de meu exílio (quase) voluntário de três anos na pequena e pacata cidade de Mococa. Tempos estranhos, aqueles. Foi o pior dos tempos e foi o melhor dos tempos. Tempos, ao mesmo tempo, de solidão e de mesa sempre posta de  bucetas.
Minha criação se mostrou à minha imagem e semelhança : simples, bronca, rude, áspera, grossa e mal-educada, e que desce redondo pela garganta, feito um ouriço-do-mar.
É o Guerra Fria. Que consiste tão-somente em misturar doses iguais de vodka e de coca-cola e completar o resto do copo com muito gelo - siberiano, de preferência. O Guerra Fria reúne e congraça o melhor de dois mundos, a quintessência dos dois gigantes que dominaram o mundo polarizado pós-Segunda Guerra, a vodka das estepes russas e a coca-cola, que, ao lado da bandeira e da águia-careca, talvez até suplantando as duas em popularidade, é um dos símbolos americanos por excelência.
O Guerra Fria é Mikhail  Gorbachev e Ronald Reagan enchendo a cara num boteco pé-sujo e beliscando amendoim e tremoço.
Não pode, porém, o Guerra Fria, ser feito com qualquer vodka. Esse é o único detalhe a se atentar. Sei que detalhe é coisa de viado, mas esse detalhe, paradoxalmente, é justamente no sentido de evitar a viadagem : nada de vodkas como Smirnoff, ou Orloff, que é tudo nome de russos barbudões que, quando se encontram, beijam-se calorosamente na boca, lascam uma beiçada um no outro, a manter vivo esse estranho costume russo.
Tem que ser vodka Natasha! Tridestilada, fabricada pela Bacardi, a mesma do rum.
Natasha : nome de russa loira e peitudíssima, vaca leiteira criada nos dourados trigais soviéticos, Natasha Romanoff, a Viúva Negra, Scarlett Johansson.
Hoje, cada vez mais saudosista, resolvi entrar no túnel do tempo, retroceder na história - na minha história -, voltar aos meus tempo de Guerra Fria.
A Natasha está no congelador desde manhã, tomando corpo e consistência, noiva a se preparar para as tão ansiadas núpcias; a coca-cola - garrafa de vidro, é claro - também está no ponto.
Daqui a pouco, eu começo. Daqui a pouco, aciono o botão da bomba H.