Meio-dia e poucos, o sol a pino providencialmente tirado de cena por um dia que resolveu se trajar de galena, o homem velho, com o seu brilho também nublado, porém, pelas décadas, vinha descendo a rua com uma sacola plástica quase transparente na mão, seu almoço acondicionado em um marmitex de isopor comprado ao restaurante da esquina.
Sessenta, sessenta e poucos, talvez; barba e cabelos de um branco que não há muito vencera e expulsara de vez o grisalho, bem aparados e penteados, compleição física ainda com memória recente de uma definida rigidez, barriga de um convexo comedido, não imoral, fora, provavelmente, um homem bonito quando jovem, diriam as más-línguas, fazendo-se de boas.
Aura de respeitabilidade, vinha descendo a rua, o homem velho, com seu almoço em direção ao seu carro estacionado sob uma espirradeira - nem de luxo nem popular, o carro; carmim, as flores da espirradeira. Semblante de uma vida estável e tranquila, o do homem velho, tanto economicamente quanto nas relações pessoais, ares de quem bem cumprira com a vida. Que aura de respeitabilidade, um bom carro, conforto financeiro e emocional e sensação do dever cumprido é o que a vida dá em troca pela juventude dos que a ela se resignaram e bem serviram. Feito empregador que, de uma hora pra outra, sem aviso prévio, passa a nos pagar em reais o que antes recebíamos em euros.
Ela vinha subindo a mesma rua, pela mesma calçada que o homem velho, vinte e poucos anos de idade, se muito, blusa com o nome de uma empresa de contabilidade bordado no lado esquerdo à altura do seio, apressada, seguramente em sua corrida hora de almoço, e com o indefectível e apaspalhador celular na mão, capa rosa com motivos florais.
Não exatamente bonita, ela; vê-se que nunca o fora nem nunca o será, porém, envolta por uma impossível de se ignorar aura de hormônios e de viço, naquela fase em que a Natureza, independente de ter acertado ou não no molde e no acabamento, torna suas fêmeas em um chamariz à reprodução.
O homem velho, já com a chave a abrir a porta do carro, viu a moça e estacou. O carro sumiu. Sumiram o peso do marmitex em sua mão, o pavimento da rua, o movimento do tráfego, os sons dos motores, das buzinas, dos cachorros, da obra em construção, as cores da espirradeira, das roupas, dos muros e das fachadas das casas, dos folhetos de propaganda abandonados ao chão, do céu. Sumiram o ar e a própria necessidade de respirar.
Ela atravessou para o outro lado da rua a alguns passos de cruzar com o homem velho. Notou-o tanto quanto à espirradeira, aos sacos de lixo depositados nas calçadas, aos buracos da rua, à enxurrada da chuva recém-finda a minguar, ao poste de iluminação pública, ao gato na varanda da casa a lamber o próprio cu, à mulher que varria as folhas da calçada.
Ela (para o homem velho) : a recondensação do Universo, uma nova singularidade prestes a parir o Big Bang;
O homem velho (para ela) : invisível.