A semianalfabeta,
Porém, não burra, tampouco honesta,
Dona da lanchonete
Que superfatura e sobretaxa a água mineral
O chiclete, o croquete e a cerveja
(por sorte, há sempre um mercadinho na esquina);
O aposentado do INSS
Que guarda a porta do banheiro
Como um cérbero desdentado a do inferno
E cobra moedas e tributos
De quem quer mijar;
A "tia" da limpeza
Que varre
Varre onde está limpo
Onde está sujo
Varre onde acabou de varrer
Varre papéis, pés
E cacos de decepções das chegadas e partidas
Para o bueiro da rua,
Para contaminar a chuva
Ou para engordar as ratazanas;
A velha corcunda
Que passa com seu carrinho de feira
A recolher a xepa da civilização
- garrafas pet, embalagens tetra pak
papelão, latas de alumínio -
E com um terço calejado a deslizar por entre os dedos verruguentos;
Mães jovens
Já com mais filhos que com dentes
Arrastando a fila indiana de suas crias
A caminho das casas dos avós, tios, irmãos, ex-maridos :
Passar as festas de fim de ano
Celebrar a escala industrial de suas misérias;
Um paraplégico vendendo jujubas, drops de hortelã e CDs piratas;
Um cego oferecendo bilhetes premiados da Loteria Federal
(olha a borboleta, olha a borboleta);
Um ex-presidiário se queixando de ter cumprido quatro anos e nove meses de sua pena de seis e dois
(uma porra, uma merda, a justiça desse país);
Três bichinhas
Frescas, perfumadas e serelepes
Provavelmente com os cus recém-depilados
Apostam e embarcam para um fim de semana em Poços de Caldas
(e o calor de 38ºC e a fumaça do diesel formam a água desse aquário pré-cambriano);
E eu,
Arrancado à força
De minha rotina de bicho-da-seda
Por motivos cotidianos e fúteis
Porém, imperativos
Como são todos fúteis
Os imperativos do cotidiano,
Olho para tudo isso de fora
Mas sabendo-me parte.
Resguardo-me como posso
Enquanto espero manquitolarem as duas horas que faltam para a chegada do meu ônibus.
Defendo-me do único jeito que conheço,
Do único jeito que aprendi
Do único eficiente para mim :
Entorno latão atrás de latão.
Cada qual lidando com suas misérias,
Com suas deficiências,
Com seus aleijões.
(na rodoviária, não é preciso chegar a noite para que todos os gatos sejam pardos)