Conto só com meus músculos lassos 
Para propelir cada um de meus indecisos passos. 
E ainda que funcionem só por condicionamento, 
Que caminhem sem ter porquê caminhar, 
Ainda que cada contração seja um lamento, 
Estão um tanto distantes de me atraiçoar. 

Conto só com uma pequena úlcera gástrica 
A lembrar-me de que preciso de comida, 
Apenas um comodismo absurdo 
Ligando-me ainda à vida. 
Só o meu calor a dormir comigo 
E a solidão de um buraco negro a se oferecer em jazigo. 
Ainda assim 
Não é agora que vou deixar de regar minhas plantas. 

Conto só com o silêncio telepático de meus neurônios 
Para conversas, conselhos e bebedeiras. 
Conto nem com minha metade 
Fração sempre fui, minha vida inteira. 
E se o ar por mim ainda flui 
É por pura inércia rotineira. 
Ainda assim 
Não é motivo pra eu deixar de abrir minhas cartas. 

Em verdade, 
Sou galáxia na iminência de um colapso; 
Não importa: 
Sou meu próprio Sol, planetas e satélites.