Por esse sujeito, sim, o país deveria se quedar em luto. A carpir sua morte, nos inundar diuturnamente com Jornais Nacionais. Em respeito imortal, todos os lápis, canetas, máquinas de escrever, computadores e imaginações e vícios de poetas fazerem uma estrofe de silêncio.
Mas, afinal, quantos brasileiros já ouviram falar em Ferreira Gullar? Não. Ele não foi centroavante da seleção de 70. Nem artilheiro da Libertadores. Nem nunca foi técnico do Corinthians. Nunca jogou no "Barça". Então, para o brasileiro, não tem importância nenhuma. Tome um antiemético hoje e assista ao Fantástico. Duvido que escute sequer uma notinha sobre ele.
Ferreira Gullar foi poeta. Dos bons. Dos do caralho. E não morreu. Que poeta não morre. Só troca de editora. De planeta. Entra para a Mitologia. Que a ABL é para Paulos Coelhos e Josés Sarneys.
(1930 - 2016)

TRADUZIR-SE
(Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?