Ronda é um clássico. E como tal, acredito que dispense apresentações. Mas há uma particularidade sobre Ronda que, talvez, a maioria desconheça : seu autor, Paulo Vanzolini, detestava-a, tomou-lhe ojeriza.
Em vida, Paulo Vanzolini foi diretor do Museu de Zoologia da USP, uma das maiores autoridades mundiais em herptologia (o estudo de cobras e lagartos), dono de uma das maiores bibliotecas da América Latina sobre o assunto e um dos fundadores da FAPESP. E nas horas vagas - onde é que o cara achava horas vagas? -, foi também um letrista de samba de primeira grandeza, o doutor do samba, como era chamado.
E odiava Ronda, seu filho mais notório. Vanzolini considerava a canção "piegas", dizia que as pessoas não deviam gostar de Ronda, mas que gostavam, pois muitas pensavam que a música era uma homenagem à cidade de São Paulo e sua boemia. E nunca foi nada disso. 
Ronda foi composta depois que ele, aos 21 anos, servindo ao Exército, e frequentador contumaz da ZBM (a zona do baixo meretrício), viu uma puta a procurar por seu macho, de bar em bar. Ele pensou que era pra fazer as pazes com o amante, mas depois ficou sabendo que era para passar fogo nele. Então, nasceu Ronda. Ronda é música de puta, as pessoas nem deveriam achá-la tão bonita, sempre disse Vanzolini. 
Mas creio que a causa da aversão do criador à sua criatura nem seja essa, a má interpretação de sua letra pelo público. Ronda, ao mesmo tempo que alçou Vanzolini ao firmamento dos grandes sambistas, rotulou-o para todo o sempre como um compositor de um só sucesso. O sucesso da puta que prometia cenas de sangue num bar da avenida São João ofuscou todo o conjunto da obra de Vanzolini.
Ronda foi sua benção e sua maldição, seu Gênesis e sua Nêmesis; depois dela, nada mais que ele fizesse caía no gosto dos ouvintes, todos ficavam a aguardar uma Ronda 2, 3 etc. Uma música de puta, feita aos 21 anos, acabou por nublar toda a produção de Vanzolini, que morreu aos 89 anos. E sua obra é vasta e primeiríssima qualidade poética e musical. Ser reduzido à Ronda, deixava o cara puto da vida. E com toda razão. Vanzolini tinha toda razão em ter pego repulsa à canção.
Em 2o03, foi lançada uma belíssima coleção da obra de Vanzolini, uma caixa com 4 CDs intitulada Acerto de Contas. São 13 músicas por CD, interpretadas pelos grandes nomes da MPB. Baixei a coleção à época, gravei-a em um CD e a ouvi à exaustão. São mais de 50 músicas belíssimas, letras e mais letras de grande inspiração e esmero, todo o conhecimento acadêmico da língua portuguesa transferido à canção.
Mas querem saber? Que me desculpe o finado doutor do samba, que seu fantasma não me assombre pelo que vou dizer, mas Ronda é mesmo a melhor!!! Pããããããta que o pariu se é!!! Ronda toca fundo na sofrida e corna alma nacional.
Ronda é música de puta, e daí? Ronda é um clássico! É música de fossa e de corno, ao mesmo tempo! Por isso, tanto caiu no gosto, no imaginário e no coração do brasileiro.
Ronda
(Paulo Vanzolini)
De noite eu rondo a cidade
A te procurar 
Sem encontrar.
No meio de olhares espio,
Em todos os bares
Você não está...
Volto pra casa abatida,
Desencantada da vida.
O sonho alegria me dá:
Nele você está.
Ah, se eu tivesse
Quem bem me quisesse,
Esse alguém me diria:
"Desiste, esta busca é inútil".
Eu não desistia,
Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar.
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres,
Rolando um dadinho,
Jogando bilhar
E neste dia, então,
Vai dar na primeira edição:
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João.