Cerca de uma hora após o telefonema de Virna, Rubens chega à velha loja de conveniência 24 h e a vê já sentada, a esperar no deque contíguo, de costas para a loja, com um capuccino e tabletes de chocolate a lhe servir por companhia. Rubens não vai direto até Virna, entra na loja, pega uma lata da cerveja mais barata e gelada que consegue encontrar.
- Demorou... - diz Virna.
- Você me conhece, venho a pé, devagar, um contemplador da noite, do universo.
- Sei... ainda sem carro?
- Sem carro nem carteira de habilitação.
- Sem lenço nem documento...
- Aí estão duas coisas que nunca carreguei.
- Estranhou eu ter te ligado agora, depois de quatro ou cinco anos? - pergunta Virna
- Acho estranho você não me ligar sempre, o antinatural, para mim, é não nos falarmos. E são quase 6 anos, na verdade.
- Achei que talvez você não viesse.
- E alguma vez não acorri a um chamado seu, alguma vez não respondi ao seu bat-sinal lançado aos céus?
- Bom, teve aquela vez naquele bar de rock, o Arquivo X, lembra dele?, uma certa pessoa disse que chegaria de madrugada e depois saiu-se com uma história de que não acordara com o despertador, teve também aquela ocasião naquele sarau, ainda...
- Tá bom, tá bom. Você sabe mesmo como estragar uma boa frase de efeito.
- Uma boa frase? Boa? Clichezão de conquistador barato, meu caro. Acho que sua noção de qualidade foi seriamente afetada nesse tempo todo sem me ver.
- Longe do seu domínio, eu vou de mal a pior?
Riem. Virna acaba seu cappucino e Rubens, sua primeira lata.
- Deve ser culpa dessas vagabundas, dessas desclassificadas com quem você se relaciona.
Rubens vai à loja. Mais um capuccino para Virna, e duas cervejas para si.
- Te liguei - começa Virna - porque fiquei sabendo que está sozinho, livrou-se de mais uma de suas biscates.
- Isso foi há dois dias. As notícias continuam correndo rápido na província.
Silêncio. Virna leva um pequeno quadrado de chocolate à boca, sorve um pequeno gole de café, aspira seus vapores. Rubens dá uma sonora talagada em sua cerveja, reduz a lata pela metade.
- Mas você - Rubens limpando a espuma do lábio superior -, até a última notícia que tenho em mãos, continua casada, certo?
- Hoje ele tá viajando... e pensei que ele não se oporia em eu tomar um café com um velho amigo.
- Ligou pra ele perguntando? Ligou, não, né, que hoje ninguém mais liga pra ninguém, enviam mensagens, whatsapp, mandou um whatsapp pra ele?
- Vou mandar um whatsapp é pro seu cu!!!
- Melhor que um "torpedo"...
Riem, de novo. Rubens acaba com a lata. Põe a mão em cima da de Virna.
- É sempre assim, né, Virna?
- É...
- Houve vezes em que você estava livre...
- ... e você não podia, Rubens.
- Outras em que eu estava livre...
- ... e que eu não podia, como agora.
- Houve até ocasiões em que nós dois não podíamos.
- Mas nunca uma vez em que nós dois estivéssemos desismpedidos, não é?
- Nunca, Virna, nunca.
- E ainda assim...
- E ainda assim, a primeira coisa que lhe disse ao telefone, quando reconheci imediatamente sua voz, foi, eu te amo, Virna.
- E como tanta certeza?
Virna acaba com o café e Rubens, com a outra lata de cerveja.
- Como tanta certeza, Rubens? Nunca houve nada entre nós na verdade. Nunca tivemos nada. E não me venha com outro clichê como explicação.
- Bom, se quer ineditismo, vou precisar de mais um tempo. E de mais umas latas.
- Filho da puta.
Rubens sai e volta. Mais um café, mais duas latas de cerveja.
- Me diz, como tanta certeza, Rubens?
- Se nunca tivemos nada, né?
- É.
- É que eu nunca não tive com alguém o que eu nunca não tive com você.
Agora é Virna quem leva sua mão à de Rubens.
- Rubens...
- Fala.
- Traz uma cerveja pra mim?
- A de sempre?
- A de sempre.
O de sempre, pensam os dois.