Antônio Abajamra era formado em jornalismo e filosofia. 
Foi diretor e ator de teatro e cinema.
Era mal-humorado. 
Pessimista. 
Não tinha nenhuma esperança na humanidade. Nem em si mesmo.
Era crítico e ensaísta.
Entrevistador que não gostava de ser entrevistado.
Um provocador, um dos únicos que a TV brasileira teve em toda a sua história. Abu, como era conhecido no meio, levava as mais inusitadas, bizarras e controversas figuras ao seu programa "Provocações", transmitido pela TV Cultura. E não tinha predileção por nenhum de seus entrevistados, tampouco lhes aliviava a barra ou lhes fazia concessões. Punha a todos em sinucas de bico, acuados, encalacracados por suas perguntas e observações contundentes e demolidoras. Abu tinha estofo e cultura para deixar qualquer um numa puta de uma saia justa. Sim, porque um provocador tem que ter estofo, senão não é um provocador, é apenas um encrenqueiro.
Um gênio, segundo os do meio.
Mas Antônio Abujamra foi muito mais que tudo isso. O ranzinza Abu foi nada mais nada menos que o meu declamador maior. Sim, Abujamra foi o declamador-mor dos poemas do Azarão.
Ao fim de cada "Provocações", depois de encerrar a entrevista e se despedir do convidado da semana, Abujamra fechava o programa com a leitura de um poema. E só tinha autores "ruins". Abujamra lia Manuel Bandeira, Álvaro de Campos, Bertolt Brecht e outros que tais. E não é que em um belo dia, minha esposa chegou para mim e perguntou se eu sabia que o Abujamra tinha lido um poema meu no encerramento de seu programa?
Claro que eu não sabia. Fui lá no site da TV Cultura e dei de cara com Abujamra interpretando o meu "Criador de Gatos", com meu nome aparecendo na forma de legendas ao canto do vídeo e tudo.
Fiquei, é claro, envaidecido, lisonjeado pra caralho. Se eu ainda tivesse algum resquício de ego, ele teria se inflado mais que peito de atriz pornô americana. Fiquei envaidecido, porém, não totalmente satisfeito com o velho Abu. Abujamra não declamou meu poema na íntegra. Cortou-lhe versos e ainda mudou seu final, justamente o final que justificava o título do poema. Não sei se ele fez isso propositalmente, por pura provocação, ou se ele recebeu o poema mal redigido por quem o enviou ao site da TV Cultura; aliás, até hoje não sei como o poema foi parar por lá.
De qualquer forma, fui lido por Abujamra. E isso não é para qualquer um. Pãããããta que o pariu, se não é !!!
Para assistirem ao vídeo do Abu a declamar Azarão, entrem no site da TV Cultura : 
https://www.youtube.com/watch?v=8LpPNjdJh58 
Para lerem o poema na íntegra, entrem aqui mesmo, no Marreta :
Antônio Abujamra faleceu na madrugada de hoje, aos 82 anos, de infarto do miocárdio. Morreu dormindo. 
Dá cá um abraço, velho Abu, que é a única coisa falsa nessa postagem.