Não me negaste teus olhos, 
Teus braços, 
Teus músculos me enlaçando com o vigor do aço : 
Me negaste a felicidade fácil. 
Por isso minha vingança, 
Meu desprezo, 
Minha fome em te ver caída. 

Não me negaste apenas bálsamo para a ferida, 
Tua língua, 
Tua saliva: 
Me negaste a felicidade esquiva. 
Por isso minha necessidade de te pôr em tristeza, 
Por isso meu escárnio 
A cortar, vento gélido e seco, a tua pele indefesa, 
Por isso essas rugas em teu espelho. 

Não me negaste teus cabelos, 
Teu colo, 
Tua voz a afugentar meus pesadelos: 
Me negaste a felicidade nua em pelo. 
Por isso a minha vontade de em ácido te emergir, 
Por isso a minha zombaria, 
Muco pegajoso, 
Querendo ao oxigênio te impedir. 
Por isso essa tua agonia sem aviso. 

Não me negaste teu sorriso, 
Teu ventre, teus dentes, 
Teu umbigo : 
Me negaste a felicidade que eu tanto persigo. 
Por isso meu desdém, 
Minha urgência em te vestir em pranto, 
Por isso meus incisivos 
A espalhar teus segredos pelos quatros cantos. 
Por isso essa minha ânsia em te embutir dor 
A suprema dor dos que sabem que nada saberão, 
A grande dor dos sábios.

Por isso te deixo sangrando 
E nem espanto as varejeiras 
Que ovos em seus lábios vão depositando.