Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Instituto Vox Populi revelou, mais uma vez, o que todo mundo já sabe : o brasileiro é corrupto! De berço, de nascença!
Aliás, via de regra, o ser humano é corrupto, independente da nacionalidade ou etnia. O que muda são os conjuntos de leis aos quais as nações submetem seus cidadãos. Leis mais rígidas, cidadãos aparentemente mais educados e respeitadores; leis menos rígidas... De resto, é tudo o mesmo barro.
Conheço o caso de um sueco, professor universitário, que, em intercâmbio pelo Brasil e a lecionar em uma de nossas mais diletas universidades públicas, saía todas as tardes à calçada de sua casa e jogava ali o lixo, espalhava o lixo, sem latão nem saco plástico.
Aí, o orgulho nacional foi ferido, alguns alunos que o flagraram em tal imundície, colocaram-no contra a parede, perguntaram ao nobre docente nórdico se ele tinha o mesmo comportamento em seu país, a Suécia. O professor disse que não, mas que havia concluído, pelo que observara nas ruas da cidade, que no Brasil era permitido jogar lixo nas ruas. Primeiro, o cara não está errado em sua conclusão, está? Segundo, se o cara fosse mesmo educado e consciente, o mundo a sua volta poderia estar atulhado de lixo, ele jamais jogaria o seu nas ruas, fosse na Suécia, fosse no Brasil.
O fato é que o ser humano educado só existe sob um código severo de leis. O que, no Brasil, não existe.
A situação por aqui anda tão ruim que o brasileiro é corrupto cotidianamente, em várias de suas práticas tidas como normais, e nem se dá conta disso, exerce plenamente a corrupção como ela fosse um direito legítimo, como se ela nem fosse corrupção.
A partir dos dados da pesquisa, a UFMG e o Vox Populi elaboraram uma lista com as 10 corrupções preferidas do brasileiro, um top ten do nosso famoso jeitinho : 
- Não dar nota fiscal
- Não declarar Imposto de Renda
- Tentar subornar o guarda para evitar multas
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado
- Roubar TV a cabo
- Furar fila
- Comprar produtos falsificados
- No trabalho, bater ponto pelo colega
- Falsificar assinaturas
E tem muito mais. No supermercado, por exemplo, pessoas consomem produtos durante suas compras e descartam as embalagens vazias nas prateleiras, muitas vezes não pagando pelo artigo; o caixa nunca tem moedas de 1 centavo para o troco exato, pessoas com carrinhos abarrotados entram na fila do caixa rápido, jovens na fila reservada aos idosos.Vagas e lugares destinados a deficientes físicos raramente são ocupados por quem lhes é de direito. E a coisa segue por aí.
A pesquisa revelou também que ainda há uma certa esperança, e ela vem dos jovens, que estão mais conscientes e engajados.
Lamento informar aos pesquisadores que o jovem é tão corrupto quanto o velho, sei porque trabalho no meio deles, não se iludam com os discursos dos jovens. A única diferença entre o velho e o jovem, no quesito corrupção, é o discurso, o do jovem é mais hipócrita, a prática é a mesma. Lamento informar aos pesquisadores que os jovens mentiram na pesquisa, eles mentem mais que os velhos.
O adolescente é o primeiro a colar na prova, a tentar falsificar identidade para entrar em festas e comprar bebidas alcoólicas, a tentar fraudar provas de vestibulares com o uso de celulares, instagrans etc. O jovem é tão corrupto quanto o velho, ou até mais, pois suas desonestidades são vistas como normais à idade, como atos de rebeldia. Não são. São safadezas, mesmo.
No serviço público, então, é que o caldo engrossa e entorna de vez. Uma vez protocolado um pedido qualquer, uma gorjetinha,  um agrado ao carimbador maluco da seção sempre agiliza o processo. É o famoso "apressamento". Um diploma de conclusão de graduação universitária, por exemplo, chega a levar um ano, ou mais, para ser devidamente registrado em um órgão federal. Mas se o graduado precisar dele com urgência, um apressamento põe o canudo em suas mãos no prazo de dois ou três dias.
Por isso, quando um país feito o nosso, quase que em uníssono, num heróico brado retumbante, conclama a prisão dos mensaleiros, não é por consciência cidadã que ele o faz, não é por anseios morais que tal grito se lança ao céu, que nosso lábaro ostenta estrelado : é por inveja, pura inveja.
O cidadão comum, o corrupto mequetrefe, morre de inveja do corrupto bem-sucedido.
Fonte : BBC Brasil