A figura da foto ao lado é a pastora Dolores, da Igreja do Evangelho Quadrangular, candidata pelo PSDB a vice-prefeita de Ibirité (MG) na chapa do Pinheirinho (PP). Ibirité, que fica a 25 km de Belo Horizonte e tem quase 150 mil habitantes, elegeu Pinheirinho e Dolores com 43,7% dos votos válidos.
Promessa de campanha da vice-prefeita : promover, nos seus quatro anos de mandato, o total expurgo dos católicos de Ibirité. Acabar com a raça dos padres, dificultar a construção de novas igrejas católicas, destruir tudo quanto é santo exposto em repartições públicas, desapropriar as igrejas católica construídas em terrenos doados pela prefeitura, proibir procissões pelas ruas da cidade e acabar com os feriados católicos.
Devo confessar que é uma plataforma de campanha das mais tentadoras. Até para mim, que sempre anulo o voto. Ver os católicos passarem por um sufoco, serem perseguidos como já perseguiram, seria bem divertido.
O problema é que a dita cuja quer acabar com todas essas regalias católicas ilegais (já que o Estado é laico) para transformá-las em regalias evangélicas ilegais. É trocar merda por bosta.
E trocar uma merda por uma bosta bem mais fedorenta. Porque, apesar de todo o desprezo que nutro pelos padres, tenho que admitir que, no mínimo, são pessoas estudadas, são 8 0u 9 anos de seminário, de onde o padre sai formado em teologia e filosofia, ambas as formações com o reconhecimento do MEC de cursos superiores. O que o padre vai fazer posteriormente com esse conhecimento, se vai aplicá-lo para esclarecer o seu fiel ou torná-lo ainda mais tapado e cordeiro, já é outra história, mas que ele possui um relativo grau de estudo, ele possui, e o conhecimento é, ainda, uma das poucas coisas que eu respeito. Já os pastores evangélicos, e digo dos chamados neopentecostais, via de regra, são semianalfabetos de pai e mãe, chucros de DNA.
Os terrenos desapropriados da igreja católica seriam repassados à construção de novos templos evangélicos, que teriam ajuda do cofre público para sua construção, os feriados católicos seriam substituídos por uma semana evangélica obrigatória para os funcionários municipais e  estudantes, além  de dar preferência aos evangélicos na contratação de professores, para que “trabalhem no evangelismo das crianças e jovens”.
As promessas de campanha estão declaradas em uma carta, supostamente de autoria da vice-prefeita, entregue aos pastores da Quadrangular às vésperas das eleições. A missiva foi distribuída SOMENTE AOS PASTORES da IEQ e demais clérigos que compareceram aos encontros promovidos pela candidata Dolores. Atenção para a orientação ao final da carta : 

 Compromisso da pastora Dolores com os pastores

1- Retirar e proibir imagens de santos nas repartições públicas e demolindo também a gruta da santa no central park, o que ajudará o trânsito e evitará idolatria católica.
2 - Proibir a presença de padres no velório municipal e eventos municipais.
3 - Criar a semana evangélica obrigatória para todos os funcionários da prefeitura.
4 - Proibir procissões de santos nas ruas e nas praças.
5 - Repassar terrenos doados para os católicos pela prefeitura no passado para as igrejas evangélicas ainda sem templo próprio naquelas localidades.
6 - Criar a semana evangélica estudantil obrigatória para todos os estudantes, professores e funcionários das escolas municipais.
7 - Dar preferência a funcionários evangélicos nas escolas municipais para estes trabalharem no evangelismo de crianças e jovens.
8 - Dificultar e impedir a construção de novos templos dos católicos.
9 - Ajudar com dinheiro, materiais, mão de obra e equipamentos a abrir novos templos evangélicos das igrejas que estão nos apoiando em cada bairro da cidade.
10 - Acabar com todos os feriados municipais de adoração de santos que é um pecado.
11 - Transformar nossa cidade em uma cidade 100% evangélica em quatro anos         
“Esta carta é extremamente secreta, não entregue. Cópia dela (sic) deve ser lida nos cultos do último domingo antes das eleições como combinamos na reunião. EXIJA O VOTO DE SEU REBANHO.”
Se alguém quiser ver a reprodução da tal carta, acesse o link do site Genizah, de onde tirei essas informações.
Que me caia o pau se essa porra de regime em que vivemos é uma democracia, se é uma democracia aceitar a candidatura de uma aberração dessas, ou não tê-la impugnado caso a carta de intenções tenha surgido após o registro no TRE, ou não depor a vice-prefeita de seu cargo agora, caso a tal carta só tenha aparecido após sua eleição.
Que me sequem os bagos se episódios feito este não é claramente dar uma chance legal e constitucional à intolerância, ao fascismo. E fascismo por fascismo, eu prefiro o ditador declarado, prefiro os tanques nas ruas.
E não venham, os democratas de plantão, querer me convencer que esses são incidentes isolados, que esses absurdos ainda ocorrem porque o brasileiro exerce a democracia há pouco tempo, que estamos em fase de aprendizado, que, com o tempo, esse tipo de candidato será excluído pela própria população.
Pelo contrário, essa lassidão nas regras só leva a uma maior deseducação, a um maior descaso para com o verdadeiro exercício da vontade política. Permitindo a candidatura dessas figuras de show de horrores, o brasileiro nunca aprenderá que a política e a vida pública são coisas sérias, que devem ser exercidas por pessoas capacitadas e de bom senso.
A pastora, obviamente, nega a autoria da carta, jura por Jesus que não é a mãe da criança, diz que foi ato de seus inimigos políticos, que forjaram a carta e a espalharam pela cidade com a intenção de prejudicar sua candidatura. Será que um inquérito irá ser instaurado para melhor apurar os fatos e para que se tomem as devidas providências, ou ficará o dito pelo não dito?
Tomara, sinceramente, que democracia não seja isso. Porque se for, repito, prefiro os tanques nas ruas. Antes quartéis que igrejas, antes a disciplina que o fanatismo.