Amanhã - que já é hoje -, volto ao trabalho. 
Que detesto. Com o qual não mais me identifico há muito, se é que um dia já; a memória não é mais confiável para afirmar que sim ou que não.
Algum idiota, querendo me provocar, disse que não lhe parecia muito honesto que eu vivesse de um trabalho o qual desprezo. 
E quem disse que eu vivo do meu trabalho? Ou que sou honesto? Viver, eu vivo das pequenas coisas que gosto de fazer, e que ninguém mais pode fazer por mim. Como escrever essas considerações aqui, a uma hora dessas; como cuidar do meu filho. Meu trabalho, inúmeros outros podem fazer por mim, não interessa se melhor ou pior , podem.
Do meu trabalho tiro o dinheiro que põe a comida na mesa, que paga as contas da casa, a escola e os remédios do filho. Obtenho tudo do trabalho, menos a vida. A vida é o que deixo de lado quando vou trabalhar.
Quando volto ao trabalho é que tiro férias verdadeiramente. Tiro férias da vida, desgraçadamente. Pobre daquele que confunde a vida com os meios de mantê-la.
Amanhã - que já é cada vez mais hoje -, volto ao trabalho. 
Bebi mais do que devia e dormirei menos quê. Ressaca e sono virão me dar bom-dia em poucas horas. Ressaca se rebate com outra talagada do mesmo veneno. E a falta de sono? Com mais falta de sono? Não funciona, eu sei que não. O sono deficitário deveria ser considerado um dos maiores males dos tempos atuais.
Mas ainda tenho meus passos rápidos e firmes movidos à cafeína, tenho o rio que tentam verter em cimento há décadas, mas que sempre transborda transgressor, tenho caminho reto e certo, e um destino que não me exige mais nenhum esforço, cujo roteiro já sei cor.
E tenho a certeza da volta e da reclusão à minha casa, aos meus, à vida.
Eu penso neles, e a merda do trabalho fica fácil.