Eu Nem Dava Bom-Dia

Hoje
Eu dou bom-dia. 
Dou bom-dia
Ao porteiro,
Ao catador matinal de latinhas,
À velha solteirona que cuida dos gatos da rua
E varre as calçadas de todo o quarteirão,
Ao velho viúvo que sai a passear com o cachorro.
Dou bom-dia
Até - e principalmente - ao cachorro
Que sai a levar o velho viúvo pra passear,
Aos gatos, que madrugam para dar sentido à vida da velha solteirona que os alimenta.
 
Hoje
Eu dou bom-dia.
Dou bom-dia
Aos que caminham para os seus trabalhos,
Aos que esperam nas filas de ônibus,
Aos que dormem nas praças,
Aos pombos das praças,
Aos bustos e estátuas de vultos históricos das praças, dos quais ninguém nunca ouviu falar, 
Aos mendigos,
Aos que pedem trocados e moedinhas.
 
Hoje
Eu dou bom-dia.
Dou bom-dia
Aos que trabalham comigo,
Ao pessoal da segurança,
Da copa e cozinha,
Da limpeza.
 
Hoje
Eu dou bom-dia.
Mas não dou conversa
Não dou esmolas
Não dou confiança
Não dou trocados
Não dou intimidades.
 
E se lambam :
Pois
Há não muito
Eu não dava nem bom-dia. 
 

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