Sou um velho.
Não fiz nada de minha vida.
Mas será que a vida é feita
Sou um velho.
Não fiz nada de minha vida.
Mas a vida já não é
(já não seria)
Em si própria
A obra-prima
Pronta e acabada
Irretocável
Mona Lisa da existência?
Sou um velho.
Não fiz nada de minha vida.
Sou filho rebelde e reclamão dela.
Ovelha negra.
Ainda assim
A vida me mantém vivo.
Ainda assim,
Mãe ingênua, ilusa e cega
(como toda mãe )
Acredita que farei algo da vida.
Que encontrarei
Algum propósito
Gosto
Motivação
Satisfação.
Algum
- cruel como toda mãe zelosa -
Amor pela vida.
Sou um velho.
Não fiz nada de minha vida.
Desprezei seus cuidados
Seus conselhos
Suas canjas e orações
Escarneci de seus zelos.
Por vingança,
A vida,
Que nunca foi fácil de se viver,
Por castigo,
A vida,
Que sempre foi esposa geniosa,
Me guarda
Me cerca
Controla meus horários
Minhas idas e vindas.
Cão doberman,
A vida,
Não deixa
Sequer
Achegarem-se a mim
Os flertes e os galanteios
Da Morte.
7 Comentários
Olha Azarildo, essa sua veia poética, mesmo que trocando o belo por cenas de angustia, é muito boa!
ResponderExcluirE quem disse que um poema tem que ser de amor, de beleza, de positividade?
Parabéns amigo.
Cara, nesse meu atual desânimo para escrever, um elogio desse é um fortificante, uma catuaba para minha inapetente caneta.
ExcluirSim, poesia não precisa ser melosa, piegas,tratar somente das Marílias. Até pode ser também, mas não só.
Vide o inigualável e inclassificável Augusto dos Anjos, o poeta da putrefação.
Até o Bandeira versa sobre isso:
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfa, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
Isso mesmo Azarildo, mas as pessoas se esquecem.
ExcluirSeu poema é muito, muito bom. Mas te digo uma coisa: os recentes acontecimentos em minha vida fizeram com que eu revisse conceitos, promessas e ameaças definitivas. A vida continua sem sentido, mas talvez a possamos transformar em celebração. De quê?, perguntará você com muita razão. Não sei, talvez possamos celebrar o ar que entra (mesmo que poluído) por nossas narinas, o gosto amargo da cerveja barata mas boa, o sorriso de seu filho, as peitudas que gosta de publicar, os valores essenciais que te trazem algum prazer mesmo que fugaz e até a amizade com desconhecidos que nunca encontrará fora da internet. Hoje penso que a vida é celebração (por isso estou aqui de volta).
ResponderExcluirBem-vindo de volta. Também voltei lá ao Blogson depois que o Fabiano me deu a notícia do falecimento de sua esposa. Conversei com ele sobre minha preocupação do que você vai fazer com todo o tempo livre que tem agora só pra você, tempo que você sempre usou para cuidar dos filhos, do casamento, do emprego e, no fim, da saúde de sua esposa. Ter tanto tempo livre de uma hora pra outra e não saber o que fazer com ele pode ser perigoso, pode dar margem a pensarmos muitas besteiras.
ExcluirDisse ao Fabiano que torço também para que seus filhos estejam sempre por perto, mais ainda agora, estejam sempre te monitorando, pajeando. Você e sua esposa fizeram isso muito bem por eles. Chegou a hora da retribuição.
Que você se adapte a essa nova e indesejada etapa de sua vida e que consiga, vez ou outra, celebrar.
Abraço.
Valeu!
ExcluirSe eu jogar essa poesia no Suno, será que a música fica boa? Eu vivo usando as outras.
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