Tenho um móvel na sala.
De madeira
Retangular
1,5 m x 0,8 m.
Uma espécie de estante.
Dividida não em prateleiras horizontais,
Sim em quadriculados,
Feito aqueles escaninhos antigos,
4 x 2.
Em cima dela,
Um porta-retratos
Um vaso de cristal
Dois elefantes com as bundas viradas para a porta de entrada.
Nos quadriculados,
Enfio ali
Meus cadernos
Rascunhos
Estojo de canetas
Fios de extensões
Minha bolsa de lona cáqui  
Cartelas de Dipirona
Livros já lidos
Em andamento,
À espera.

Minha gata Cleonice
Também costuma se meter
E hibernar por ali.
Escolhe sempre a célula mais abarrotada.
Podem estar todos os quadrados vazios
E apenas um ocupado :
É para esse que ela pula.
E com sua pata almofadada
E movimentos de tai chi chuan de que só os gatos são capazes,
Vai empurrando para fora,
Para o chão,
O que julga necessário para ali se enrodilhar :
Às vezes, um livro
Às vezes, o estojo de canetas
Às vezes, meus óculos.
Horas depois,
Pula para o chão.
Franze e ajusta os olhos
Alfinetados pela luz.
Boceja,
Espreguiça.
Sai, belisca uns grãos de ração,
Alivia-se na caixa de areia.
Volta
Arranha o tapete
E vai se encaixar na caixa de sapatos
Ao pé da árvore de Natal.

E passa o dia nisso,
Nessa rotina
Nesse vai e vem
De lugar nenhum pra nenhum lugar.
Sem nenhum problema
Sem nenhum exaspero
Sem nenhum drama de consciência
Sem nenhum tipo de frustração
Pela mesmice
Sem culpa nenhuma pelo ócio.

Gatos,
Mais que qualquer outro ser vivo,
Coexistem tranquilamente
Com o inexistente sentido da existência.
A Cleonice não pensa na vida.
Ela só vive.
Só é.
Cleonice não precisa de álcool,
De antidepressivos, 
De religiões.

Sem contar que,
De madrugada, 
Amiúde,
Desperto com ela
Sobre o meu peito,
Acocorada em esfinge.
A me observar
A me guardar
A me proteger de meus demônios
Com seus olhos de topázio.
Mais lindos que os de qualquer mulher
Que já tive a chance de vislumbrar.
De uma serenidade
Que eu já tive
E há muito perdi.
De quem era capaz
De reler Alice no País das Maravilhas
Numa única tarde
Sentado ao banco 
De uma umbrosa praça.