Há muito que eu não sei o que é ficar mais do que dois ou três dias sem dar uma bebericada. A última grande estiagem de cerveja se deu há uns sete ou oito anos, quando uma tendinite braba no joelho me fez passar três semanas à base de um anti-inflamatório pesadíssimo, e totalmente incompatível, avesso e beligerante ao álcool.
Com a pandemia, então, aumentei ainda mais a frequência de ingestão da loira gelada; porém e longe disso, não frígida. Há semanas em que, nem que sejam duas ou três latinhas, eu bebo todos os dias. É bom para assistir a um filme. É bom para ouvir uma música. É bom para escrever. É bom para, simplesmente, só beber.
Sinto de verdade, e claro que pode ser apenas mais um dos enganos do álcool, que penso melhor e mais claramente sob os eflúvios de uns latões. Tem o bêbado que fica mais emotivo, tem o que fica mais falante, tem o que fica mais chato, tem o que fica mais valente. Eu sou do tipo que pensa que pensa melhor.
Será, de fato? Muito já se relatou e se escreveu sobre os efeitos das drogas na criatividade e no pensamento humanos. Álcool, maconha, ópio, absinto, Jesus, LSD e demais psicodélicos (os quais, tenho enorme vontade de experimentar, mas, ao mesmo tempo, um medo, um cagaço ainda maior do que eu poderia "ver").
Há uma droga, no entanto, sobre a qual acredito não haver relatos de sua influência no pensamento e na criação. A pior de todas as drogas : a abstinência.
Resolvi, depois de matutar a questão por uns meses, fazer um experimento com tal droga. Tentarei passar um mês sem colocar uma única gota de álcool no organismo. Nem álcool em gel na torrada, eu passarei mais. E ver o efeito sobre o que eu penso, sobre as ideias que tenho e na maneira que eu as desenvolvo e escrevo.
Não, não é autopunição nem autoflagelo. Nenhum tipo de culpa ou de arrependimento (ponderei muito a respeito dessa possibilidade inconsciente) me levou a essa decisão. Curiosidade, apenas a boa e velha curiosidade. Como funcionarei sem o álcool? Funcionarei?
Pensei em começar hoje, sexta-feira, mas seria até sacrílego. Poderia ser amanhã, mas irei para a casa da minha sogra, que mora em outra cidade. Passar o fim de semana na casa da sogra, e a seco, é castigo que não sei se ninguém merece, mas tenho certeza de que eu não, e como eu disse, a intenção do experimento não é a de punição ou purgação. Além disso, a véia também é chegada num litrão. Antes um pacto com o Tinhoso que fazer desfeita pra sogra.
Começarei, pois, feito todas as dietas e regimes fracassados, o meu jejum alcoólico na segunda-feira, 26/10.
À guisa de despedida temporária, hoje irei de uma boa e barata que descobri recentemente, a cerveja Malta.