A seção Cerveja-Feira está fadada à extinção. Meu repertório para homenageados ou esgotou-se, ou nomes que muito me agradariam ter por aqui, como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Belchior, Bóris Yeltsin (o Jânio Quadros russo) etc, não os consigo achar em fotos com um copo ou com um belo dum canecão de cerveja nas mãos.
Por aqui, passaram escritores, músicos, gostosas, personagem de desenho animado, um país, uma antiga civilização, presidentes da República e até um Papa. Sem muito o quê, e para não falhar como falhei na cerveja-feira da semana passada, resolvi dar destaque a uma linha de cervejas relativamente recente no mercado brasileiro : as boas e quase baratas. As chamadas "puro malte", um meio-termo entre as cervejas "comerciais" e as artesanais.
As boas e quase baratas caem bem ao paladar e não chegam a provocar princípio de infarto e AVC no Margá, o escorpião que habita o meu bolso. Das boas e quase baratas que experimentei, estão no meu pódio a Proibida rótulo preto (medalha de bronze), a Brahma Extra Lager (prata) e a Serramalte (ouro). E hoje, no exato momento em que rascunho esta postagem, uma boa e quase barata nunca dantes entornada ameaça roubar o terceiro lugar, quiçá o segundo, das Olimpíadas cervejeiras do Azarão : a Salzburg.
Às sextas-feiras - tornou-se praxe nesta pandemia e neste saudável e bem-vindo isolamento social -, vou pela manhã à feira livre do bairro para comprar pastéis (carne e queijo para o filhotão, palmito para a esposa e o insuperável bacalhau da japonesa para mim) e, na volta, passo por uma loja de conveniência de um posto de combustíveis para pegar umas três latinhas de Lokal ou de Serrana. Hoje, dei de cara com a tal Salzburg em promoção, R$ 2,89 a latinha de 350 ml. Pensei : por que comprá-la, por que não comprá-la, por que comprá-la, por que não comprá-la? Comprei-a-a.
Quando verti o conteúdo da primeira lata no meu poderoso Canecão, um arrependimento precoce começou a se armar. Por alguma razão que minha razão desconhece, associo uma cerveja de mais qualidade a uma cor mais escura, mais brônzea. A Salzburg é de um amarelo claríssimo. No entanto, o primeiro gole já fez valer o investimento : ela tem um amargor bem mais pronunciado que uma Bohemia, uma Império, uma Petra ou uma Cacildis. Um amargor muito bom, que persiste na língua.
Gosto - espelho de Obsidiana, talvez - de gostos mais amargos. Adoro um jilozinho, por exemplo. Pãããããããããta que o pariu se adoro!!! É bem verdade que poderia ter uma melhor carbonatação, que sua espuma durasse mais um pouco mais, mas nada que deprecie a sua refrescância. E a embalagem também é bem caprichada, um ouro velho a servir de tela para um elmo e uns brasões medievais. Aprecio a simbologia dos brasões ou escudos de armas. Um dia, a me sobrar tempo e disposição, ou a ter direito a uma reencarnação, tenho a intenção de me aprofundar na arte da Heráldica. A latinha vai para a minha pequena coleção.
Arrependi-me de ter pego só três.
Prosit!