- Por que resolveu se ir? - pergunta Selene.
- Resolvi? - diz Rubens.
- Tá... por que se vai?
- Talvez por não poder ficar.
- Não poder? - instiga Selene.
- Não conseguir.
- Destino, então, Rubens?
- Quando havia opções?
Rubens e Selene secam o resto de cerveja em seus latões.
- Livre-arbítrio, então, meu homem perdido, meu ateu devoto?
- Livre-arbítrio? Quando todas as opções são exatamente a mesma escolha?
- Por que, então, a mudança, o movimento? - e Selene abre mais um latão para si e outro para Rubens.
- Talvez para não morrer à míngua, como os tubarões, que, parando de nadar, não importa para onde, deixam de receber o oxigênio que lhes passa pelas fendas branquiais, dissolvido na água, na inércia aos seus redores.
- Faria diferença, então, ficar e morrer?
- Se fosse em uma de suas crateras isoladas acusticamente, em um de seus úteros anaeróbios, não. Não faria diferença partir ou ficar.
- Mas não poderá ser, né? Não será, não é mesmo? - Selene, sentindo faltarem-lhe a gravidade e a atmosfera.
De um fôlego, Rubens drena o latão recém-aberto e se encaminha para a cozinha. Fazer o último café dos dois.