Não gosto mais de ver meus garranchos no papel.
Meu código Morse indecifrável,
O engodo de minhas tranças de Rapunzel
(vou quebrar meu telégrafo, passar máquina zero na cabeça e lançar-me, suicidar-me do alto de minha torre de marfim).

Não gosto mais de ver meu texto na tela.
Minha dor digitalizada,
Formatada em Arial
E fossilizada em bits e pixels :
Adormecida,
Já não me parece mais tão bela.

Escrever
(percebo isso agora)
É erguer altar, igreja e tribunal em causa própria.
Poesia
É Narciso polindo e mirando-se
No branco do papel,
Se babando por um origami feito à sua deformidade e semelhança.

Escrever
(desiludo-me agora)
É autoadoração e autoflagelo
É libertinagem e celibato
É cornucópia e jejum
É férias na casa da avó e campo de concentração.

Escrever
(horrorizo-me agora)
É homem de meia-idade
- de cabelos brancos de um amarelo crestado e encardido,
de vistas e de ânimos de bengala,
de barriga mole sempre pronta a dar o bote, à menor distração -
Em rídicula e solitária masturbação.