Tenho medo de tocar-te 
(mão à tua mão). 
Medo de teus olorentos poros 
Serem ventosas exatamente complementares aos meus. 
Tenho medo de abraçar-te 
(braço a braço, perna à perna). 
Medo dos teus painosos pêlos 
Se encantarem dos meus em persa tapeçaria. 
Tenho medo da tua óptica, 
Da tua mira olhos-laser vagalumeando em meu peito. 
Medo quando tão próxima respiras, 
Quando arfas e deslizas, escorrendo do leito. 
Mas medo mesmo tenho – medo de verdade – ,
Quando falas, 
Quando explicita tuas idéias, quando dizes do teu mundo, 
Num sem-fim de combinações e jogos de palavras 
Tais e quais aos que eu faria 
Caso tivesse coragem de interromper-te 
(nunca faço : sou apenas eu falando por uma boca mais bela). 
É do que tenho mais medo: 
Nossos pensamentos em unidirecional fluxo, 
Nossos rios de serotonina em caudalosa confluência. 
Dos poros, dos pêlos, do leito, 
O paladar, o olfato e o pau logo esquecem. 
O cérebro, não! 
O cérebro é foda!