Acontece com o atleta.
Que preserva
- em salmoura -
A técnica, os fundamentos
A experiência e a malícia de seu esporte,
E que o corpo
Em Alzheimer muscular
O sabota
Marca-lhe um gol contra
Desclassifica-o por W.O.
E fim do pódio
E fim de jogo.

Acontece com o herói.
Que conserva
- em sarcófago -
O idealismo
O altruísmo
A ingênua causa do bem comum,
E que a máscara
Já se puiu e se rasgou em outros e antigos carnavais
E que o uniforme e a capa só querem ser de égide ao próprio herói
Só querem ser de cobertor e de pantufas.
E fim dos telhados enluarados
E fim do voo.

Acontece - e por que não? - com o poeta.
Que embalsama e mantém
- em formol, louco taxidermista -
Velhos escritos em empoeiradas gavetas
Velhas glórias e inspirações 
Asfixiadas em garrafas nunca lançadas ao mar,
E que a artrite
E a recidiva de uma incubada timidez
Desanimam-no e o impedem
De fazer a corte
E de tirar novas ideias
- frescas e donzelas -
Para dançar.
E fim da valsa
E fim da rima
E fim da linha.

em tempo : o texto acima surgiu por conta dos recentes lançamentos dos novos trabalhos de três dos grandes nomes da MPB, Chico Buarque, Guilherme Arantes e Os Tribalistas. Trabalhos em que cada qual nos mostra que ainda sabem fazer a lição de casa direitinho, que ainda não desaprenderam a andar de bicicleta; porém, trabalhos que, se comparados aos anteriores dos próprios artistas, mostram-se pálidos, inexpressivos. Dispensáveis para a história criativa de cada um deles. Assim como vem acontecendo, de uns dois ou três anos para cá, com os textos que escrevo aqui no Marreta.
É a podridão, meus velhos.