Anjos são capetas em forma de guris.
Anjos são da guarda, mas têm que ser guardados, cuidados, muito bem cuidados.
Anjos voam, mas são por demais desastrados, distraídos, aéreos. Perdem, por vezes, suas pequenas asas de pensamento, feitas de pétalas de ipês-brancos, e se tornam caídos.
E como caem os pequenos anjos. Caem do chão ao chão. Um tropeção na beirada do tapete e lá se põe o nariz a sangrar, e lá se vai aquele vacilante e pênsil, porém renitente, dente de leite que resistia ao seu permanente sucessor. Caem do sofá ao chão. E lá desponta, cordilheira recém-erguida, aquele galo na testa, um ovo roxo, de avestruz. Caem de suas brincadeiras ao chão. Um joelho ralado, um tornozelo torcido, um braço quebrado.
E anjos caem, às vezes, de janelas de banheiros de apartamentos localizados nos 26º andares de edifícios. Tornam-se, então, verdadeiramente anjos. Ganham os céus.
E a quem fica, e a quem teve o anjo sob a sua falha guarda, o Inferno. Não o de Dante, que esse é colônia de férias, é spa, é resort. O da vida que segue, o da lembrança. O pior e o mais dantesco deles : o da ausência do anjo.