Hoje não vou nem mesmo me banhar 
Quero feder à heresia 
A esgoto lançado ao mar 
E assim devo me deixar. 
Já que não sou mesmo de nenhuma utilidade 
Pra que toda essa limpeza, 
Toda essa vaidade? 
Nada mais de polir a casca 
E o interior a se desmanchar. 
Que se igualem, pois, os dois 
Que seja tudo única sujeira 
Um único queloide. 
Já que não tenho mesmo nenhuma serventia 
Pra que tanto zelo, 
Tanta assepsia? 
Nada mais de semblante amável 
E um coração que só sabe odiar. 
Serei completo ódio 
E darei estetoscópios ao mundo 
Pra que ninguém deixe de meu ódio escutar. 
Já que não sirvo mesmo pra nada 
Pra que desalojar a imundície, 
Por que não deixar o sebo criar camada? 
Nem a remela dos olhos, hoje, vou tirar 
Vou deixar minha fedentina 
Qual grudenta serpentina 
Em seu perfume do Boticário se enroscar. 
Deixar-me criar fungo 
Crescer craca no dorso 
Leucemia em tudo que é osso 
Raspar essa minha pele de carnaval. 
E já que não sou mesmo de nenhuma função 
Pra que tanta higiene, 
Tanta dedetização? 
E esperar... 
Um motivo, 
Uma necessidade, 
Uma vida, 
Uma nova era glacial.