Ser funcionário público
É a liberdade absoluta.
Tão ancha e plena
Que a ela ficamos presos,
Acomodados.
Acomodados ao calabouço da liberdade,
A mais eficiente das carceragens.
Não há masmorra mais inescapável
Que aquela em que somos cativos
E carcereiros.

Ser funcionário público
É ser livre para não ser de nenhuma função
Ou utilidade
Ou até ser
Mas poder escolher não exercê-la.

É ser tão livre
Que dessa liberdade
Contamos os dias para nos livrar,
Para nos aposentar.

Ser funcionário
É poder não funcionar, 
Já que a ineficiência
É o que é esperado de nós.

É poder 
Não ter que puxar o saco de eunucos,
É poder não erguer altares
Para pequenos e podres poderes.

É poder devolver ao mundo,
Impunemente,
O mau humor
Que ele nos causa.