Trinta dias
Sem ter que conviver com nenhum clandestino.
Só comigo,
Com os meus :
Filho, esposa,
Minhas duas gatas,
Livros, discos, gibis.

Trinta dias
Sem ter que interagir
Com quem a nada reage,
Sem ter que dialogar
Com papagaios,
Sem ter que trocar ideias
Com quem não as têm para escambo.
Só com os robôs 
Que me atendem :
nos supermercados
nas padarias
nos bancos
nas bancas de jornais.
Tenho com eles
Mesma relação que com um semáforo.

Trinta dias
De madrugadas
De me sentar à sacada
Abaixo, a rua limpa de gente
À frente, um canecão de cerveja bock
Trinta dias 
Sem trabalhar
Sem nada produzir
Nos mais completos
Isolamento
E inutilidade.
E quem disser que há melhor vida
Decididamente
É um completo idiota.

Mas o coletivo
Não me dá grandes folgas.
Logo vem 
Com seu balido descerebrado
Logo vem 
Com sua fossa negra
Me acuar com seus dejetos
Me sufocar com sua merda.
Sobe-me pelos pés
Calcanhares
Joelhos
Umbigo
Queixo.
Fecho os olhos
Prendo a respiração
Mergulho.