Antigamente - e bons tempos eram - só ouvíamos falar de religião caso entrássemos em uma igreja, templo ou merda que o valha, salvas as eventuais "visitas" na hora do almoço de domingo das testemunhas de Jeová e suas revistinhas Sentinela.
Hoje, a religião virou uma praga, uma pandemia perigosíssima. Estou sendo muito condescendente, corrijo : a religião sempre foi uma praga, uma pandemia, mas só contaminava os que eram dos grupos de risco, digamos assim, os que a ela se expunham sem nenhuma proteção, entenda-se por proteção um mínimo de inteligência e bom senso.
Atualmente as religiões empesteiam o ar, poluem a atmosfera feito - e através delas - as ondas de rádio, TV e celulares. Mesmo quem não tem o menor interesse na enxurrada de absurdos que compõe uma religião, acaba sendo importunado por elas. É como se o sujeito fosse capaz de contrair o vírus HIV sem ter mantido relações sexuais, recebido transfusão de sangue, compartilhado seringas etc. Por mais que não queiramos, e ainda que por breves segundos, acabamos por esbarrar em algum padre, pastor, ou idiota do tipo, dentro de nossas casas.
Há alguns meses, eu estava em um lugar onde a televisão era abastecida por uma antena parabólica. Contei trinta e três canais no total, onze dos quais eram religiosos. Fora os de venda de produtos inúteis para a sua cozinha e banheiro, e de leilões de tapetes, quadros, joias e bois. Talvez sobrassem uns cinco canais de programação "normal".
Canais católicos, evangélicos e até um japonês da Seicho-no-ie. E não estou dizendo de canais que têm certos horários de sua programação destinados às religiões. Falo de canais que transmitem baboseiras de suas bíblias em tempo integral. Nem Cristo teria paciência pra eles.
Percebendo o filão religioso, vendo o quanto é fácil ganhar dinheiro em cima dos fanáticos, vários canais estão "descobrindo" sua religiosidade, várias emissoras estão, como diriam os evangélicos, "aceitando Jesus em seus corações".
Além da Record, que é do bispo (p)Edir Macedo, a Globo e o SBT também estão se convertendo à Palavra (de novo como dizem os porras dos evangélicos). A Globo terá um especial de Natal gospel, fora com Roberto Carlos, o negócio agora é Jesus Cristo Superstar. 
Um parentêses : dando uma pesquisadinha rápida aqui pela net, fiquei a par de que o expoente atual da gospel music é a banda Diante do Trono. Eu já fiquei diante do trono hoje, virei-me de costas para ele, sentei-me e dei minha grande contribuição diária à humanidade, hoje a coisa passou do nível da água, sinto-me leve e ungido.
Mas, nessas breguices e ignorâncias, o SBT, a TV (ainda) do Senor Abravanel, é primorosa, beira o insuperável. Raul Gil já promove um show de calouros gospel, até aí tudo bem. A novidade imbatível (tomara que seja, assim espero) vem do Domingo Legal, apresentado pela figura simpática e inócua de Celso Portioli : o programa irá sortear uma benção do picareta Padre Marcelo Rossi. É isso mesmo, as pessoas se inscrevem, enviam cartas lamuriosas para o programa, sei lá, e concorrem em um sorteio cujo "prêmio" é uma visita do padre Marcelo às suas casas e uma benção do safardana.
O padre Marcelo Rossi já vendeu milhões de livros e DVDs, quanto será que ele está cobrando do SBT pela benzida? Cachê é a paga ao artista, michê, à puta (hoje, muitas vezes, cachê e michê se misturam), qual seria o nome da paga para a participação especial de um "homem de deus"?  Filhadaputê? Ou melhor, filsdeputê, para preservar o galicismo.
De quanto será o filsdeputê pago pelo SBT ao padre Marcelo? Acho que dá pra comprar um caminhão do Faustão.
Ora, vá abençoar a puta que o pariu.