Um Dia na Vida (23)

O supremo suplício de seus atuais dias, o flagelo-mor do resto de sua existência : o convívio com o ser humano, de forma geral. Necessária nota estabelecida, há, em específico, três locais que ele evita o quanto lhe é possível : hospitais/consultórios médicos, bancos e supermercados.
 
No tocante aos primeiros, tem logrado grande êxito nos últimos anos, mesmo prevaricando de exames periódicos que, dada a sua idade, são hoje considerados obrigatórios a cada, pelo menos, uma volta da Terra em torno do Sol; mas nada sente de grandes desconfortos, logo, supõe que nada tenha, e também pensa que não é bom fuçar demais nas coisas, afinal, não há ninguém perfeitamente saudável às vistas da atual e mercantilista medicina, só o que há são pessoas mal diagnosticadas. Verdade que, vez ou outra, sente dores ao andar, e ele anda muito, sintoma típico de quem não sabe o rumo a seguir, andar desvairadamente; dores no joelho, no tendão calcâneo e, a última delas e novidade para ele, uma queimação intensa na sola do pé esquerdo; chegou a pensar em fascite plantar, comprou lá nimesulida 100 mg e tomou por cinco dias, não resolveu, permaneceu a dor por uns dois meses, crê ele.
Foi deixando, foi levando... a queimação acabou sumindo por conta própria, da mesma maneira com que surgira, como todas as outras, a do joelho etc.
 
No que tange ao segundo, aos bancos, ele tem menos tempo de respiro entre uma incursão e outra : uma vez por mês. Verificar se o pagamento caiu de acordo, comprovar saldo da conta e tirar um extrato do período, ver se nenhuma movimentação estranha foi feita em sua conta.
 
No concernente aos supermercados, êxito menor ainda, praticamente um fracasso em evitá-los, ele considera. Uma vez por semana - oh, hebdômadas hostis, caro Augusto. Os supermercados são a nêmesis de seu tempo, que já é tão rarefeito, o ápice da estagnação e do desperdício de suas parcas horas. Tudo no supermercado é coagulação do tempo, pensa ele. Ainda que tente sempre ir em horários mortos, ou logo às suas aberturas, ou quase aos seus encerrares de expediente, é um tempo perdido absurdo.
 
Há filas para tudo. A do açougue, desistiu dela há tempos, as pessoas se dirigem ao açougueiro e pedem um quilo disso, um quilo daquilo, um quilo daquiloutro, vão comprar um boi inteiro, mas o querem fracionado; opta por comprar cortes de frango dispostos na ilha de congelados, ou peças fechadas a vácuo e já temperadas de carne suína, mesmo que gaste uns trocados a mais no quilo do produto do que dispensaria no açougue.
 
 A fila dos frios é pouco mais célere, tudo já se encontra fatiado ou porcionado, ainda assim prefere comprar a muçarela em pedaços disposta em freezers verticais, o mesmo valendo para mortadela, linguiça etc, salvo se diferença de preço for muito grande. A do pão também não enfrenta, abastece-se de pão de forma. Da via crucis do hortifruti, não há escapatória, respira fundo e aguarda o desfile daquela procissão de cenouras, beterrabas, abobrinhas etc sendo pesadas e etiquetadas com códigos de barra.
 
A pior, no entanto, pior que todas as outras somadas, o grande gargalo de estrangulamento é a fila do caixa. Em parte, pequena parte, pela inabilidade de alguns de seus operadores, mas principalmente pela folga, pela preguiça, pelo desprezo aos outros que também passarão pela registradora e pelo retardamento mental cada vez maior da população. 
 
Comum - e o irrita profundamente -, o sujeito que espera passar a compra toda para só depois começar a acondicionar os itens nas sacolas, só após o quê, dirige-se à caixa para efetuar o pagamento, enquanto isso, a moça do caixa fica esperando o bonitão, ou a bonitona, impedida de atender o próximo cliente. São pessoas ou extremamente desrespeitosas para com o tempo alheio, ou totalmente lesadas mesmo, daquelas que se forem descer ou subir uma escadaria mascando chiclete, das duas, uma : ou tropeçam, ou se engasgam, ou ambas. Em seguida, o mesmo filho da puta ou esquece a senha, ou o pix não abre na desgraça do celular, ou paga uma parte em dinheiro, outra no vale-alimentação e outra no crédito. Canalhas, pensa ele, pústulas. 
Há toda sorte de filhos da puta nas filas de caixa, um tipo que ele eliminaria sem remorso da face da Terra : os que passam com a compra do mês no caixa destinado a 15 ou 20 volumes no máximo. Tantas foram as vezes que se queixou ao gerente da porra sobre isso que nem mais tenta.
 
Assim, tenta avaliar os operadores de caixa (como compra no mesmo mercado há anos, conhece mais ou menos parte deles), tenta analisar a destreza com que estão trabalhando naquele dia, suas velocidades, até mesmo o humor aparente de cada um. E, feito estivesse num hipódromo, tenta apostar no mais veloz, no mais hábil jóquei de caixa registradora.
Dificilmente sua aposta vence o páreo, raramente sua poule sai premiada.
 

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