Um Dia na Vida (20)

Mal raiou o dia e eles passam. Puta que pariu como eles passam. Em tropel de gnus, em estouro de rinocerontes, em tsunamis de brucutus. Homens, mulheres, ciborgues broxas e estéreis saídos de academias de crossfit. Pagam os tubos para frequentar uma academia e os instrutores os põem para correr nas ruas, onde poderiam correr de graça. Corpos esculpidos a lipoaspirações, drenagens linfáticas, próteses de silicone (bundas, peitos, bíceps, peitorais e panturrilhas) e a anabolizantes, muito anabolizantes.

Mal raiou o dia e eles passam. Puta que o pariu como eles passam. Caravanas, romarias. Uma procissão de ciclistas, ops, ciclitas, não, bikers; que hoje ninguém mais anda de bicicleta; todos pedalam (Valha-me (nada) Santa Dilma Rousseff). Passam em suas montarias de fibra de carbono, de alumínio de fuselagem aeronáutica. Passam com suas roupas coladas, lycra, neoprene ou o caralho a quatro. Passam com os cus roçando o selim, anatomicamente fálico. Passam com capacetes e outras proteções, roupas com enchimentos, com almofadas no cu, para não assar o toba. Passam com faixas refletoras em seus trajes, com um led pisca-pisca localizado bem abaixo do selim; visto de longe, ou a meia distância, parece que o cu do biker está a piscar, a pedir por rola. E, com certeza, está.

Mal raiou o dia e eu passo. Puta que o pariu como eu passo. Em passos rápidos, típicos de quem não tem onde chegar. Ou que tem, por pura obrigação, sobrevivência, mas queria não chegar. Passo com meus tênis de palmilhas gastas, que deixam minhas solas em chamas, de solados carecas, que, em dias de chuva, é como pisar, não sobre ovos, sim em cascas de bananas. Passo com minhas calças desbotadas ou coisa assim, minhas camisetas Hering da década passada (quiçá século), minha bolsa de lona a tiracolo. Lata de cerveja na mão.

Mal raiou o dia e todos nós passamos. Puta que o pariu como passamos. Cada qual em suas maratonas, em seus calvários. Mal raiou o dia e nós passamos. Puta que o pariu como passamos. Cada qual (exceto eu) à procura de novos recordes, de novas conquistas.
Todos nós sem nunca conhecermos o pódio.

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