O suicida não é o sujeito que quer se matar, é só aquele que não suporta mais viver – pensa ele, lata de cerveja barata na mão, sentado à escadaria de uma praça relegada ao esquecimento pela administração pública, degraus de cimento áspero e bruto, fustigados e erodidos pelo sol inquisidor e carrasco; porém, nessa época do ano, mimados, acariciados e beijados pelas flores amarelas cadentes da sibipiruna, que dançam pelo ar e vêm pousar em festa e velório em suas frestas e desvãos.
O suicida não quer se matar; ele só não quer mais é viver. O suicida não quer sentir a dor e a agonia da morte autoinfligida, sejam elas mais ou menos lancinantes, sejam elas um tanto demoradas ou quase instantâneas, a depender do método que adotar: enforcamento, envenenamento, overdose de remédios, um tiro de 38 na têmpora ou contra o céu da boca.
O suicida não anseia pela dor da morte; o que ele não mais quer é sentir, tolerar, conviver com a dor da vida. Prefere a dor maior, no entanto, mais rápida e definitiva, da morte que a dor homeopática da vida, a dor pingada pelo conta-gotas de Deus em todos os seus dias; em seu café da manhã, em seu arroz com feijão do almoço, na cerveja de seu fim de noite.
Prefere concentrar toda a pequena dor diária de um resto indefinido de vida em um único momento de dor máxima, o do ato do autoextermínio.
O suicida, se pudesse falar ao seu Criador, se esse Criador houvesse, com certeza, não se mataria, optaria por pedir-Lhe que retirasse dele o dom da vida concedido, que o desligasse, sem sofrimento, sem único segundo de martírio. Mas ele não pode. Então, toma a decisão mais racional que um ser humano pode tomar: suicida-se.
O suicida não quer se matar; ele só não quer mais é viver. O suicida não quer sentir a dor e a agonia da morte autoinfligida, sejam elas mais ou menos lancinantes, sejam elas um tanto demoradas ou quase instantâneas, a depender do método que adotar: enforcamento, envenenamento, overdose de remédios, um tiro de 38 na têmpora ou contra o céu da boca.
O suicida não anseia pela dor da morte; o que ele não mais quer é sentir, tolerar, conviver com a dor da vida. Prefere a dor maior, no entanto, mais rápida e definitiva, da morte que a dor homeopática da vida, a dor pingada pelo conta-gotas de Deus em todos os seus dias; em seu café da manhã, em seu arroz com feijão do almoço, na cerveja de seu fim de noite.
Prefere concentrar toda a pequena dor diária de um resto indefinido de vida em um único momento de dor máxima, o do ato do autoextermínio.
O suicida, se pudesse falar ao seu Criador, se esse Criador houvesse, com certeza, não se mataria, optaria por pedir-Lhe que retirasse dele o dom da vida concedido, que o desligasse, sem sofrimento, sem único segundo de martírio. Mas ele não pode. Então, toma a decisão mais racional que um ser humano pode tomar: suicida-se.
Ainda se tivéssemos um tempo limitado (como temos), porém, definido e conhecido de vida, se soubéssemos exatamente o quanto nos falta para o fim, o suicida não se mataria. Esperaria seu prazo de existência expirar. Ainda se fôssemos feito os replicantes, de Blade Runner, cuja fenescência era programada para quatro ou cinco anos, o suicida não se mataria.
Aguentaria a angústia cotidiana do existir a contar os dias que lhe faltam, riscando-os na folhinha a cada amanhecer. Como o cansado trabalhador que conta os dias para a chegada do fim de semana, os meses para suas férias, os anos para sua aposentadoria.
Mas não. E o suicida pesa os prós e os contras da existência e morte : e se decide pela segunda. Que a pior dor que acomete o suicida é essa : não saber quando sua dor findará.
Abrindo outra latinha, e sentindo as flores mortas ou fecundadas das sibipirunas a nevar em seus cabelos, ele se pergunta : - se houvesse um Criador e fosse possível ter acesso a Ele, eu pediria a abreviação de minha vida?
Sim. Ele se sente inclinado a pensar que sim. Não como afronta ou ingratidão a um “dom divino e sagrado” lhe outorgado pelo Pai, como um filho que rejeita a herança que lhe é de direito. Não por desdém ou menoscabo pela vida que teve até então. Ele sempre soube que, em seu caso, o problema nunca foi a Vida. Ele só sente que já viveu demais.
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