Olhando o Tempo Passar, Cantando Coisas de Amor

Há algum tempo, escuto :
Como o dia
Como a semana
O mês
O ano
O grande amor
A vida
O tempo, enfim
Têm passado rápido...
Tão acelerado que a gente nem vê
Nem sente
(a não ser nas dores na coluna, nas juntas, na paumolescência, no laudo laboratorial do hemograma completo pedido pelo clínico geral, na saudade que bate numa madrugada de inverno, que chega a dar cãibra na panturrilha e no coração).

Besteira.
O Tempo
(se é que ele existe, se não uma abstração, uma arbitrariedade de nossa patética espécie)
Continua a passar como sempre passou.
Na mesma marcha
Na mesma marcha-rancho
(de As Flores de Abril, da Quarta-feira de Cinzas).

O Tempo
Segue a passar como sempre passou.
Como a Banda, do Chico, 
Cantando coisas de amor.
Passando como quando estávamos à toa na vida
E nosso amor nos chamava
Para vê-lo passar.

O Tempo
Segue a passar como a Banda, do Chico
Pela janela da moça feia
Do velho fraco
Da Lua Cheia que vivia escondida...

O Tempo
Continua a passar como sempre passou
Em adágio, não em prestíssimo.
Mas quem é que hoje fica à toa na vida?
Que moça feia fica a sonhar na janela
Se há filtros virtuais que a deixam instagramável na vitrine da ilusão?
Que velho fraco precisa sonhar que ainda é moço,
Se há o viagra, a tadalafila, os bailões (vulgos desmanches) da terceira idade, tragicômicas baladas geriátricas?
Que Lua Cheia tímida
Quer surgir num céu órfão de olhos que o contemplem?

O Tempo não está passando mais rápido
Nós é que não temos tempo
De debruçarmo-nos à janela
Para vê-lo passar.

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