domingo, 16 de setembro de 2012

Vaca Bêbada

Se eram tempos de vacas magras ou gordas, não me lembro. Sei que eram tempos de vacas pretas, os fins da década de 70 e começos da de 80, eu com uns 10 anos de idade.
A vaca preta foi a grande pedida de vários verões, era carne de vaca em qualquer sorveteria da época. Consistia em duas ou três bolas de sorvete de chocolate servidas em uma taça alta de vidro grosso e acompanhadas de uma garrafinha de coca-cola - sim, a boa, velha, clássica e esverdeada garrafa de 200 ml, que refrigerantes em lata ou não existiam, ou eram raros.
A pessoa ia adicionando, aos poucos, a coca-cola ao sorvete, mexia com uma colher de haste longa e tomava a mistura pelo canudinho. A reboque do sucesso da vaca preta, veio em seguida a vaca malhada - sorvete de flocos com guaraná.
Ambiciosos que só o cão, os sorveteiros viram a salvação da lavoura neste inusitado ramo da pecuária bovina, e resolveram tirar o pé da lama, começaram a inovar. E, então, deu-se a desgraça. Como sempre acontece quando os clássicos começam a ser popularizados e, por consequência, subvertidos.
Surgiram a vaca amarela - creme e fanta laranja -, a vaca roxa - ameixa e fanta uva -, e a surreal vaca verde - pistache com soda limonada. Já era a transgenia se infiltrando sub-repticiamente no cotidiano. Foi o fim da era das vacas. A coisa caiu no descrédito.
Agora, décadas depois, as vacas geladas dão sinal de vida. 
A rede de hambúrguer norte-americana Red Robin Gourmet Burgers criou o Octoberfest Milkshake, um milkshake de cerveja que mistura a bebida com baunilha e caramelo, ou seja, uma vaca preta à base de cerveja, a vaca bêbada. 
A rede de lanchonetes espera que sua "invenção" caia no gosto do público cervejeiro na próxima Octoberfest.
Não sei lá para aqueles lados, pelas terras do Tio Sam, mas por aqui acredito que a beberagem não lograsse êxito, não vingasse. Cervejeiro que é cervejeiro, macho que é macho, nem gosta de doce, de caldinhas, de baunilha etc, quanto mais misturá-los à sua sagrada e ritual bebida.
Aqui no Brasil, no máximo, ela seria pedida por aquelas mocinhas metidas a recatadas e pudicas, aquelas fresquinhas que adoram encher a cara, mas não assumem, elas pediriam a vaca bêbada em substituição aos seus pedantes coquetéis de frutas. A vaca bêbada poderia também encontrar larga aceitação entre os metrossexuais e outras tribos de viadinhos modernos, talvez entre velhinhas jogadoras de bingo. E só.
Entre os verdadeiros bebedores de cerveja, jamais. Quem é que pode imaginar aquele cara barrigudo, com o short deixando o rego à mostra, mascando um naco de torresmo e...tomando cerveja por um canudinho?
É muito bicha pro meu gosto, como diria o saudoso Costinha.

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